NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (05/33)

(Betto Gasparetto)

Adágio V – As Candeias da Esperança

By Dall-E 3

No cair da noite, quando a música noturna desliza entre frestas e janelas, os suspiros brotam como flores tardias, carregados de ausências e desalentos. São leves, quase etéreos, mas pesados no âmago daquele que os expira. Oh, quantos suspiros já foram ouvidos pelo silêncio das horas vazias! E quantos deles ficaram presos nos lábios, como palavras que jamais ousaram ser ditas?

Um suspiro, dizem, carrega mais do que o ar expelido; é a medida exata do que o coração suporta calar. “Ai!” – solta o peito – e o som se perde, vagando pelas paredes do tempo, sem testemunhas. Há nos suspiros algo de solenidade: eles não gritam, mas falam. Não choram, mas lamentam. E, ah, como a noite escuta! Ela escuta como nenhum outro dia ousaria ouvir, pois na escuridão não há olhos julgadores, apenas um vácuo onde os ecos repousam, suaves, invisíveis.

Quem nunca suspirou pelo que foi, ou pelo que nunca será? Quem nunca, diante de uma janela entreaberta, deixou o olhar escapar ao horizonte e ali depositou, junto ao vento, um pesar inexplicável? Há uma verdade universal no suspiro, pois ele pertence tanto ao desespero quanto ao amor. É o murmúrio mais honesto da alma, a entrega de um fardo que já não cabe no peito. Quando a última luz se extingue e a sombra reina soberana, os suspiros tornam-se os senhores das horas.

O vazio das horas, contudo, engana-se ao parecer mudo. Ele é pleno de murmúrios, sussurros e, sobretudo, suspiros. “Ah…” – solta o apaixonado, recordando olhos que jamais lhe olharam de volta. “Oh…” – expira o solitário, lembrando promessas feitas por lábios que mentiram suavemente. Mesmo aquele que ousa desafiar a noite com um silêncio feroz, se trai num suspiro: o suspiro de quem perdeu, de quem aguarda, de quem desistiu.

Não sois vós, ó homem, o artífice de vossos próprios suspiros? Acaso não carregais dentro do peito um oceano onde as ondas se quebram sem ruído? Há nos suspiros a verdade de que somos frágeis e impotentes perante o tempo que não se dobra, perante os amores que se dissipam e perante as memórias que adornam o vazio como flores secas num vaso antigo. Eles falam, mesmo que sem palavras, e são, talvez, a única oração que a noite aceita sem reprovação.

Na janela onde o vento se insinua, os suspiros ganham forma. Eles se elevam, contorcem-se e, então, somem, como se a própria noite os absorvesse em seu seio profundo. Quem escuta esses ecos? Quem os guarda? Talvez ninguém além de nós mesmos. Porque, no final, um suspiro é sempre uma mensagem para dentro, uma confissão murmurada no escuro. “Eu sinto falta,” diz o primeiro. “Eu não entendo,” completa o segundo. E o terceiro, quase imperceptível, murmura: “Eu aceito.”

Mas que ironia há nesse suspiro derradeiro, o da aceitação! Ele não é o fim do vazio, mas o início de uma resignação que se veste de falsa paz. O vazio das horas, agora, parece menos hostil, pois está cheio de suspiros que são ecos de batalhas que não travamos ou vencemos. Eles nos acompanham como companheiros silenciosos, carregando nossas derrotas mais íntimas, mas também nossas esperanças mais ternas.

No cair da noite, cada homem se torna um poeta de si mesmo, um autor que escreve versos sem tinta, apenas com o sopro quente de um lamento. Os suspiros não mentem. Eles são a mais fiel tradução do que nos atormenta e, ainda assim, nos consolam. Pois, como gotas de orvalho que caem no silêncio, eles nos recordam que o coração, mesmo sofrido, ainda pulsa. Que o peito, mesmo apertado, ainda respira.

Assim, no cair da noite, quando o vazio se apresenta, os suspiros o preenchem como testemunhas do que fomos, do que somos e do que jamais seremos.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

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