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NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (01/33)

Posted in Sem categoria on 18 de dezembro de 2024 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

Adágio I – O Descortinar do Silêncio

By Dall-E 3

No declinar do sol, quando o horizonte se veste de rubra penumbra, surge um silêncio tão denso que aprisiona a alma entre os braços do inexorável tempo. Vós, que caminhastes por alamedas de lembranças, vistes as sombras alongarem-se como fios de um tear invisível, entrelaçando as horas vazias com impressões, adornadas por sonhos que nunca se realizaram. Não há entardecer que não convoque as saudades a se revelarem, nuas em suas formas e desesperadas em suas causas.

Eis que o vazio das horas se engrandece à medida que os pássaros se recolhem às árvores e os ventos, em murmúrios mornos, falam de mundos idos, palavras esquecidas que a noite reaviva. As paredes dos corações ecoam suspiros que outrora foram promessas, e as ruas, desertas de passos vivos, carregam o lastro das partidas. Que memórias vos embalam agora, enquanto o céu apaga sua última chama? Que mãos vos tocam na ausência do toque, senão as da memória que trespassa a razão como um punhal de gelo?

O vazio se apresenta como um espectro insondável, mas está repleto de formas, de sorrisos vistos ao longe, de olhares que um dia prometeram eternidade e que agora, na tênue cortina da noite, se tornam luzes distantes, desfocadas, irreais. Por que, então, permitimos que o tempo alimente a imensidão com migalhas de esperança? Ah, o tempo! Fiel arquiteto de ruínas que um dia foram catedrais do amor e do riso.

O cair da noite não é o apagar do mundo, mas sim seu disfarce, onde sombras e verdades se confundem. Lá onde jazem os rostos de outrora, não é o esquecimento que impera, mas a imensidão de que jamais se foram. Quantos se perdem em diálogos com os ausentes, pensando que seus silêncios lhes respondem? Que somos, senão iludidos artesãos de castelos de vento, que, em sua delicada estrutura, habitam a mais pura efemeridade?

No vácuo das horas, os olhos procuram freneticamente, como faróis perdidos em mares de neblina, a figura que nunca chega, a voz que nunca rompe o abismo. Como náufragos das próprias certezas, tropeçamos em vestígios de nós mesmos, acreditando que, na busca, as memórias se transformarão em realidades tangíveis. Não se pode culpar a noite por nos enganar; somos nós que voluntariamente adentramos o véu do desconhecido, carregando nossos fardos com o fervor de quem ama suas próprias prisões.

A vida, nesse lusco-fusco, se assemelha a um palco sem plateia, onde atores solitários ensaiam falas que jamais serão ouvidas. Quando a última estrela desponta, testemunha do desassossego humano, já não há diferença entre o real e o imaginado, pois o vazio se consuma e o peito se embebe de um desejo indefinível, inatingível, mas sempre presente.

Assim, neste cair da noite, onde o vazio das horas se farta de impressões, o espírito vagueia entre o tudo e o nada, sem nunca, de fato, alcançar o repouso.

(Betto Gasparetto – iii/xx)