NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (07/33)

(Betto Gasparetto)

Adágio VII – Quem Roubou Minhas Noites?

By Dall-E 3

No cair da noite, quando as horas se estendem como um véu sem fim, ecoa no peito uma pergunta murmurada pelo silêncio: Quem roubou minhas noites? Quem apagou o lume das estrelas que antes brilhavam sobre meu existir? Quem furtou os sonhos que um dia povoavam minhas madrugadas, deixando-me entregue ao vazio que, agora, se ocupa de memórias tão amargas quanto a saudade?

As noites, outrora minhas aliadas, foram sequestradas. Já não me pertencem. Delas foram levadas as conversas que embalavam o sono, os risos perdidos entre almofadas e os olhos que, no escuro, se buscavam sem medo do amanhã. Agora, há apenas um abismo onde o silêncio se estende sem consolo, e a escuridão se torna companheira incômoda, como um estranho que ocupa o lugar de um velho amigo.

Quem, senão o tempo, teria mãos tão hábeis para roubar-me as noites sem que eu percebesse? Ah, o tempo! Arquiteto invisível das perdas, ladrão que não deixa rastros, mas cuja ausência pesa como chumbo no espírito. Um dia éramos jovens e as noites eram nossas – longas e cheias de promessas. Elas pertenciam ao amor, ao encontro, ao desejo que queimava sem culpa. Agora, elas pertencem ao vazio, ao eco dos passos que não voltam e das vozes que não mais sussurram.

Sim, quem roubou minhas noites? Teria sido o esquecimento, esse carrasco silencioso que apaga os vestígios daquilo que fomos? Ou teria sido a própria vida, que nos consome tão rápido durante os dias, que já não sobra nada a oferecer quando o céu se pinta de sombras? Há cansaço onde antes havia dança. Há exílio onde antes havia refúgio. Ah, noites que me foram roubadas! Quando vos perdestes? Em que esquina vos deixei escapar?

Nas noites roubadas, eu vejo agora apenas sombras do que um dia possuí. As janelas abertas que recebiam o vento são agora portais de solidão. O relógio, que antes era ignorado entre risos, hoje parece gritar cada segundo, como uma sentença que me condena ao vazio. E o peito, outrora cheio de vida, torna-se um tambor surdo, ecoando a ausência de tudo o que não voltou.

Talvez, quem tenha roubado minhas noites seja a própria realidade. Pois não há mais espaço para os devaneios, não há mais tempo para esperar a lua crescer ou para ouvir o canto dos grilos como uma sinfonia improvisada. A vida exige pressa, e o espírito, já gasto, cede ao peso das horas. O que restou das noites é um entardecer distorcido, um espaço onde o cansaço e a memória se abraçam, mas nunca se consolam.

No entanto, quem poderá roubar o que vive dentro de mim? Por mais que as noites se afastem, há uma centelha que ainda arde, e na escuridão vejo o rastro das estrelas que um dia foram minhas. Elas podem ter se apagado no céu visível, mas ainda brilham no íntimo, onde a esperança teima em resistir. Talvez, então, minhas noites não tenham sido completamente roubadas. Talvez eu as tenha apenas perdido em algum ponto do caminho.

Se assim for, eu posso buscá-las. Não nas horas vazias do relógio, mas no que me faz vibrar mesmo na ausência do som. Pois as noites roubadas não desapareceram; elas se esconderam na memória, onde ainda dormem os sorrisos, as promessas e os gestos que me fizeram acreditar que o escuro não era um fim, mas um convite ao recomeço.

Quem roubou minhas noites? Pergunto, e o vento responde com um sopro leve: “Ninguém pode roubar o que ainda vive em ti.”

Assim, no cair da noite, percebo que o vazio é um artifício passageiro; as noites que pareciam roubadas ainda pertencem ao coração que ousa buscá-las, ainda que em meio às sombras.

(Betto Gasparetto – iii/xx)

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