NO CAIR DA NOITE NOTEI QUE O VAZIO DAS HORAS ESTAVA CHEIO DE IMPRESSÕES (08/33)
(Betto Gasparetto)
Adágio VIII – O Dia que Rompeu o Pretérito Mais-que-Perfeito

By Dall-E 3
No cair da noite, quando os véus do silêncio cobrem as horas como um sudário, surge, do fundo da memória, uma sensação: a de que o dia, cruel e impiedoso, rompeu o pretérito mais-que-perfeito. Não aquele passado comum, tecido pelas banalidades dos instantes, mas o passado onde tudo fora pleno, onde as horas pareciam intocáveis, e o tempo não ousava sussurrar seu nome.
Ah, o pretérito mais-que-perfeito! Como um relicário guardado com devoção, nele residem os dias em que o mundo parecia em harmonia, e cada gesto era um fragmento de eternidade. Não havia promessas quebradas, nem silêncios que cortassem o coração; apenas o riso pleno, as palavras que tinham peso, e os olhos que, no entrelaçar-se, prometiam mundos sem despedidas.
Mas veio o dia — e com ele, o golpe. Esse dia, insidioso e inevitável, rompeu o fio que sustentava o passado perfeito. Já não há volta para as manhãs que não conheciam despedidas, nem para os entardeceres onde o amor se deitava tranquilo entre suspiros. O presente, agora, carrega as ruínas daquele tempo, como um altar onde as cinzas de memórias ardem em silêncio. E, no vazio das horas, o espírito sussurra: “Onde ficou aquilo que era mais que perfeito?”
Oh, quem dentre nós não já carregou nos ombros o peso de um tempo quebrado? O tempo em que tudo parecia caber na palma das mãos, onde os sorrisos eram inteiros e as palavras não temiam o futuro? A perfeição daquele pretérito não estava nos grandes feitos, mas nas pequenas certezas: no toque sem medo, no olhar sem fuga, na presença que bastava por si mesma.
E agora, no vácuo onde tudo se rompeu, surge a sensação de perda — uma ausência que não é apenas do outro, mas de si mesmo. Quem somos nós, senão fragmentos do passado que tentamos reconstruir? E como se reerguem castelos feitos de música, que se despedaçam sob o mais leve sopro do presente?
O dia rompeu o pretérito mais-que-perfeito, sim, mas quem pode dizer que ele morreu? Pois ainda vive, como um espectro dourado que caminha ao lado dos que não o esquecem. Ele pulsa nos sonhos que retornam à noite, nos diálogos murmurados ao vazio, e no coração que insiste em relembrar — não como saudade amarga, mas como um bálsamo para os dias vazios.
“O que foi mais-que-perfeito jamais será imperfeito,” sussurra o tempo, como quem consola. Pois, ainda que rompido, ele existe, eterno e intocado, no lugar onde nem os dias cruéis têm poder: a memória. Sim, o presente pode arrancar-nos o hoje, mas nunca poderá apagar o ontem que soubemos viver em plenitude.
Assim, no cair da noite, contemplamos o que foi e o que não é mais. E, na quietude do instante, há um conforto: o pretérito mais-que-perfeito não desapareceu — ele aguarda, como um porto onde o coração exausto sempre poderá repousar.
Pois, ainda que o dia o tenha rompido, o pretérito mais-que-perfeito permanece, inalterado, como uma verdade que nem o tempo, nem o vazio, ousam tocar.
(Betto Gasparetto – iii/xx)
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