14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (01/14)
(Betto Gasparetto)
Átrio 1 – Difamação e Glória

By Dall-E 3
I
Ah, que sabor mais doce tem a língua envenenada,
Que em sua malícia enredada e venenosa,
Destila o néctar amargo da calúnia,
Com suas garras afiadas e língua traiçoeira.
Não é a glória do herói, mas a do covarde,
Que se erige sobre os escombros de um nome alheio,
Como se, ao enterrar a honra de outro,
Seu próprio fosse exaltado aos céus.
II
Como são doces os louvores da mentira,
Mais doces do que o mel das promessas vazias,
E como o mundo adora se enganar
Com os reflexos falsos de quem é intocado pela virtude.
Na grandiosidade da mentira, a glória floresce,
E o mundo, em sua cegueira adorada,
Venera o impostor que se faz de mártir,
Sem ver que suas mãos estão cobertas de sangue sujo.
III
Quem é mais nobre, aquele que luta com honra,
Ou o que, nas sombras, derrota sem rosto nem medo?
Ah, a mentira é um véu de seda
Que seduz até o mais puro dos corações,
E o caluniador, senhor de sua própria cegueira,
Ri do mundo que não sabe que se torna sua prisioneira.
Como é fácil manchar a pureza do outro,
E ver-se erguido nas ruínas que ele deixou.
IV
(…)
V
A difamação não conhece limites;
Ela é uma corrente que aprisiona a alma do inocente,
E faz do homem digna uma figura ridícula,
De olhos baixos, temerosos e esquecidos de sua força.
Ah, mas como é bela a glória que acompanha a mentira!
Como ela brilha nas noites escuras,
E cega até o mais sabedor dos reis,
Que, em seu trono, aplaude os que a elogiam.
VI
Mas o caluniador, em seu sucesso, não vê o vazio,
Pois sua glória é como um espelho quebrado:
Reflete a verdade, mas de uma forma distorcida,
E, ao final, quem paga o preço de suas palavras
É o próprio espírito que se longe da luz da razão.
Oh, que vida é essa, a vida de quem vive do engano!
Uma vida que, ao final, se desfaz como fumaça,
E o caluniador, em sua ânsia de glória,
Desaparece como uma sombra na noite que não deixa vestígios.
VII
Sim, a difamação é um veneno doce,
mas o preço que se paga é o mais amargo dos tormentos.
Quem se alimenta dela verá seu estômago vazio,
E sua alma, corrompida, nunca encontrará a paz.
Porque, no fundo, a glória de um mentiroso
É uma mentira ainda maior, e o mundo, em sua ignorância,
Aplaude aqueles que, ao fim, são os maiores derrotados.
(Betto Gasparetto- xi/xcvi)
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