14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (03/14)

(Betto Gasparetto)

Átrio 3 – Guerras Adúlteras

by Dall-E 3

I
Ah, que guerra é esta travada nos leitos,
Onde o corpo é o campo de batalha,
E os corações, vítimas de traições,
São esfolados sem piedade, sem honra!
A guerra adúltera, como um espectro sombrio,
Caminha nas sombras da intimidade,
E lança suas flechas envenenadas
Nos casamentos, nos juramentos, nas promessas.
II
(…)
III
Não é o aço que corta, mas o beijo infiel,
Não são os gritos de guerra, mas os silêncios carregados,
Onde os amantes se escondem na vergonha,
E as alianças são rasgadas pelo desejo.
Oh, mas às vezes o leito se torna campo de luta,
E as almas, em fogo, se perdem no abismo
De uma paixão que não conhece limites,
Mas apenas trai o que deveria ser sagrado.
IV
O que é a fidelidade exceto uma farsa,
Quando o coração, insaciável, busca o outro,
E, em sua busca incessante, vingança o próprio laço
Que o tornava puro, que o mantinha em paz?
Os olhos que olham além do que têm,
Vêem sempre mais longe, mas nunca o suficiente,
E, ao fim, encontram a dor do vazio,
Onde antes havia a plenitude da confiança.
V
Ah, mas que dor se esconde na guerra adúltera!
Não é a dor de um ferimento físico,
Mas a dor de um coração ferido por mil facas,
Cada uma cortando um pedaço da alma,
Até que nada reste, senão um eco distante
De promessas quebradas e amores negados.
E quem, depois de tal batalha, pode dizer que venceu?
Quem, no final, pode erguer a cabeça
Sem ver as cicatrizes de uma guerra perdida?
VI
Não há paz nos corações traídos,
Pois a guerra adúltera não deixa vestígios de vitória,
Mas uma lembrança constante do que se perdeu.
E os guerreiros dessa guerra, com suas almas despedaçadas,
Carregam para sempre o peso de sua própria culpa,
Como espectros que nunca dão descanso,
Sempre buscando um perdão que não encontrará.
VII
O campo de batalha é um leito de rosas sem espinhos,
Onde o desejo se torna a arma mais letal,
E, no final, não importa quem venceu,
Pois a guerra adúltera, em sua perversidade,
Deixa todos os combatentes em ruínas,
Sem honra , sem glória, sem salvação.

(Betto Gasparetto- xi/xcvi)

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