14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (04/14)
(Betto Gasparetto)
Átrio 4 – As Grameiras e o Poder

By Dall-E 3
I
Ah, que cena grotesca é esta,
Onde a grameira se faz senhora,
Erguendo-se em sua vergonha como um cetro,
E o poder se curva diante de seu corpo nu!
Vós, que vos vendem por nossos ouros e promessas,
Que colheis os frutos amargos da luxúria,
Sois mais poderosos que os reis de pedra,
Pois quem vos olha não vê senão o desejo cego,
E por esse desejo, tudo se compra, tudo se perverte .
II
(…)
III
Que poder é este, o que está relacionado sobre suas coxas,
Onde o reino da moralidade se dissolve
E a virtude se perde na dança de um corpo esquivo?
Quem pode resistir ao perfume de uma flor
Que floresce no ventre da corrupção,
Onde cada beijo é uma assinatura
De uma aliança que não conhece lealdade?
Oh, mas não é mais que marionetes douradas,
Com corações secos e mãos manchadas de mentira,
O seu poder é o reflexo do que destrói,
E a sua força, frágil, se esvai ao primeiro suspiro.
IV
Vós sois as mestras da ilusão,
Onde o amor se transforma em moeda,
E a alma se vende por um tesouro de promessas vazias.
Mas, ah, que doce ironia é essa!
Porque o poder que ostenta, do alto dos seus leitos,
Não passa de uma fachada, um espetáculo da vaidade,
Onde todos os que vocês olham veem o brilho,
Mas não compreendem o podridão que o sustenta.
Vós sois rainhas de um império de sombras,
Onde a verdade se esconde por trás do véu
Do prazer efêmero que vos alimenta.
V
(…)
VI
Ah, mas o que é o poder, senão um jogo cruel?
Onde, por um momento de gozo, tudo se perde,
Onde os corações se desfazem e as almas se esquecem,
E quem vos venera se torna escravo do vazio
Que se esconde em cada curva e olhar.
E, ao fim, o seu reinado se desintegra,
Porque quem construiu castelos sobre areia
Não conhece o peso do tempo, nem a dor do arrependimento.
VII
Oh, como são poderosas, sim,
Mas, ao fim, o que é o poder de quem não conhece
O valor da verdade, da lealdade, da honra?
Vós sois senhoras de um império falido,
E, quando a máscara cair, o que restará de vós?
Uma sombra, um suspiro, um eco distante
Do poder que você pensa possuir,
Mas que, na verdade, nunca passa de uma ilusão
Erguida sobre a areia movida do pecado.
(Betto Gasparetto- xi/xcvi)
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