14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (05/14)
(Betto Gasparetto)
Átrio 5 – A Mercadora das Moedas

By Dall-E 3
I
Ah, a mercadora das moedas, o mestre da troca,
Que, com mãos ávidas, empilha os frutos da ambição!
Vós que, com um sorriso falso e um olhar de rapina,
Governais o mundo com os dedos manchados de ouro,
Vós sóis o verdadeiro rei, não da terra, mas da ganância,
E a coroa que ostentais é feita não de metais nobres,
Mas de mentiras polidas e intrigas bem urdidas.
Que poder reside em seu cofre,
Senão a ilusão de quem julga ser soberano,
Mas, na verdade, é apenas servo de seu próprio desejo?
II
Ah, como o ouro, sedutor, vos toma a alma,
Como a brisa leva as folhas mortas do outono,
E vós, que pensam serreis senhores do destino,
Não passais de escravos do peso das vossas riquezas.
III
Que a moeda seja o seu guia,
E o poder, o seu deus; mas, ah, que tolos sois,
Pois, enquanto a prata brilha em suas mãos,
A alma murcha, o coração apodrece
E o espírito se desintegra, perdido na busca eterna
Por aquilo que não pode ser consumido.
IV
Oh, mas que miséria é do senhor das moedas,
Que se vê, dia após dia, contando os fios de ouro,
Mas jamais conta as horas que perdeu na busca,
E jamais compreende que o tempo não se compra.
V
Vós sois ricos, sim, mas pobres no mais profundo dos sentidos,
Porque, ao acumular riquezas, vós vos afastadois
Da verdadeira abundância: a paz, a amizade, a virtude.
Vossas moedas são o peso que carregais,
E cada passo dado sobre o solo do desejo
É mais uma pedra na vossa alma,
Até que ela, pesada e corrompida, não consiga mais voar.
VI
(…)
VII
Mas que rir é esta que se escapa de seus lábios,
achando que o ouro pode comprar a honra ou o amor?
Ah, que tolice! Pois, na balança da vida,
O peso da verdade jamais se equilibra
Com o peso das riquezas que vós ostentais.
E, ao fim, quando o ouro se desfizer em pó
E os seus castelos de cartas ruírem ao vento,
Quem sereis vocês senão um homem vazio,
Sem alma, sem coração, e sem a única riqueza
Que é digna de ser possuída: a verdade.
(Betto Gasparetto- xi/xcvi)
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