(Betto Gasparetto)
Incisão II. A Sedução do Olhar Ardente

By Dall-E 3
I
Por entre véus de sombra e luz difusa,
Teus olhos, como sóis de negra chama,
Rasgavam minha paz, que ora se acusa,
E acendiam no peito de quem ama…
*
Ó farol de trevas, guia traiçoeiro,
Que ilumina a senda do meu labirinto!
Teu olhar, qual espelho falso e inteiro,
Revela-me o céu e o inferno indistinto.
*
Mas que dizer da curva de teus escolhidos,
Arcos que flecharam minha alma vendeta?
Por eles, abandono os próprios exílios
E mergulho em sua dor, tão dividida.
II
Tu me enredaste em promessa vazia,
De sonhos dourados e nuvens febris.
E eu, tolo amante, na falsa alegria,
Entreguei-me ao abismo de encantos sutis.
*
Como pode a luz que em teus olhos mora
Ser doce canto e também amarga prece?
Se em meu peito inflama e depois devora,
É vitória fugaz que à maldição se tece.
*
Que feitiço, ó dama, teu olhar derrama?
Pois mesmo ao odiar-te, sinto o desejo.
É chama gelada que o espírito inflama,
É o veneno que anseio num beijo.
III
E eu, cativo, sob o teu jugo ardente,
Suspiro na treva que tua luz traz.
Pois o amor, que no ódio é seu nascente,
Tem em teu brilho seu campo voraz.
*
Ó olhos que amei, ó luz que perdi,
Por que são centelhas de tão cruel dor?
Na tua presença, a vida parti;
Na tua ausência, é cinza o amor.
*
Que venha, pois, o destino inclemente,
Se tua visão há de ser meu flagelo.
Pois antes teu brilho, embora pungente,
Que a eterna sombra de um mundo singelo.
(Betto Gasparetto – ix/xcviii)



