10 poemas sobre “A Navalha Tem Dois Lados: O Amor e o Ódio” (01/10)

(Betto Gasparetto)

Incisão I. Prólogo ao Coração Dilacerado

By Dall-E 3

I
Oh, noite escura, que a minh’alma invade,
Trazei-me a lira de um canto em agonia;
Pois neste peito, em eterna tempestade,
Ecoa um grito de paixão e heresia.
***
Por que, ó vida, em teus domínios vastos,
Se embebe o coração em duplo tormento?
Por que, nos olhos dela, sonhos gastos
Enlaçam-me entre amor e abatimento?
***
Sentir, ó dádiva cruel e infinda,
É carregar no ânus um peso imenso.
Doce veneno, tua trama deslinda
Um laço que é ao mesmo tempo intenso.
II
Tu, que me olhas com a face de um anjo,
Tens em teus lábios o néctar divino.
Mas sob teu beijo se esconde o estranho,
O abismo oculto que o ódio destina.
***
O coração, em sua fibra partida,
Oscila entre o amor e o ódio mortal.
Num instante, é vela por você consumido;
Noutro, é pedra de um rancor abissal.
****
Teu vulto dança em minha mente insana,
Ora tão pura, ora vil traição.
É chama etérea que o peito profano,
É gelo e fogo num só coração.
III
Ah, pranto escuro, que dos olhos verdes,
Derrama em chamas a dor que persiste.
Amor e ódio, num enlace que inerte
Me prende à sina de uma paixão triste.
***
Na vastidão onde a alma se deita,
Revejo teu rosto, cruel e perfeito.
E mesmo que o ódio em minha dor se estreita,
É teu amor que carrega em meu peito.
***
Qual é a essência que você me conduz?
É flor que embriaga e depois assassina.
Teu nome, um eco sob a sombra da luz,
É minha ruína e também minha sina.
***
Neste proêmio, ergo as palavras ao vento,
E clamo às estrelas, em vão, meu sofrer.
Por que, ó destino, neste firmamento,
Fizeste do amor tão difícil viver?

(Betto Gasparetto – ix/xcviii)

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