14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (12/14)
(Betto Gasparetto)
Átrio 12 – O Rei Não Sabe Ler

By Dall-E 3
I
Ah, que espetáculo é este, em que o rei não sabe ler?
Com coroa dourada e manto de seda,
Ele se senta em seu trono, como um deus,
Mas não pode ler os sinais da sua própria destruição.
Que rei é este que não conhece as palavras,
Que não pode desvendar o significado dos próprios decretos,
II
E, ao tentar governar, se perde nas linhas do vazio?
Ele é um monarca sem sabedoria,
Um soberano cujo reino é governado pela ignorância,
E suas decisões, sem base, fundaram seu império
Na fossa escura da ilusão e da mediocridade.
III
Você, oh rei sem saber, quem você aconselha?
Se não podem ler as cartas que são entregues a vós,
Como podemis distinguir a verdade da mentira?
Com vossos olhos cegos, julgais as almas,
E, com vossas mãos trêmulas, escreveis sentenças de morte.
IV
Mas, ah, o que é um rei sem sabedoria,
Senão uma criança brincando com fogo?
Vossas palavras não são leis, mas ecos vazios
Que ressoam nas paredes de um castelo de vidro,
Pronto a se despedaçar ao menor toque de razão.
V
Não sabeis o que é o poder do conhecimento,
Nem o que é o peso das letras que forjam o destino.
Em vossa ignorância, vós sois como uma estátua de sal,
Imóvel e incapaz de compreender o mundo que vos rodeia.
Como pode um homem governar sem saber a verdade
Que se esconde nas páginas que ele nunca leu?
E como pode um rei, sem as armas do saber,
Enfrentar o mar revolto das dúvidas e das revoluções?
Vós, que pensais que a coroa confere sabedoria,
Vós, que acreditais que o poder nasce da aparência,
Estais condenados, sem perceber, a ser fantoche
Nas mãos daqueles que sabem o que vós nunca perceberam:
Que a verdadeira força de um rei reside em seu coração informado.
VI
Oh, que ironia cruel é essa, que vê o rei,
Sentado em seu trono, sem entender as cartas que o cercam,
E se perde nas palavras que não sabe ler!
O império que ele governa não é de ouro, mas de areia,
E, quando o vento da verdade soprar,
Não restará mais nada senão a poeira do que ele não quis conquistar.
Pois o rei que não sabe ler é um rei sem alma,
E seu império não é mais do que um espelho quebrado
Que reflete a vaidade e o orgulho de quem se esqueceu
De que o verdadeiro poder vem da sabedoria,
E não do ouro, nem da coroa, nem da ilusão.
VII
No fim, o trono se esvazia,
E o rei, em sua solidão, se verá sem reino,
Sem saber o que fazer com o poder que nunca entendeu.
(Betto Gasparetto- xi/xcvi)
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