14 MONÓLOGOS DO PEREGRINO NA SALA DOS PASSOS PERDIDOS (13/14)

(Betto Gasparetto)

Átrio 13 – Ao Povo só Restam os Deveres

By Dall-E 3

I
Ó povo, ó multidão, que caminha em cegueira,
Com olhos vendidos pela ilusão do conforto,
Que vive aclamando as mentiras dos tiranos
E ergue os braços, mas não vê que está acorrentado!
Vós, que soais em júbilo pelas falsas promessas,
E cantais hinos de liberdade em cadeias invisíveis,
Quando, ao invés de reis, sois governados por seus próprios medos,
E ao invés de senhores, sois escravos do vosso desejo de prazeres fúteis.
II
Ah, como são cegos, ó povo, ao olhar para o futuro,
Com os pés enredados nas sombras de um passado ignorado,
Onde a história é distorcida e as verdades esquecidas,
E cada um de vós vive na mentira que vos conforta.
Vós que idolatrais os ídolos de barro,
E erguês os altares aos deuses de ouro,
Ignorais que a verdadeira glória não se encontra
Naqueles que vos enchem os olhos, mas sim
Naquelas que iluminam os vossos corações com sabedoria.
III
Mas, vós, pobres almas, que temem o desconhecido,
E aplaudís o opressor que vos dá falsas esperanças,
Onde está a coragem que, outrara, habitava os corações dos antigos?
Onde os heróis, os verdadeiros libertadores,
Que não se curvam diante do poder, mas o desafiam com a verdade?
Ah, vós, que preferis a falsa paz da ignorância
À luta pelo que é justo,
Vós, que trocais a liberdade pela segurança da mentira,
Olhai o espelho de vossa própria subserviência!
IV
O que fareis, quando o peso das correntes
Que vós mesmos colocais em vossos próprios corpos
Se tornar insuportável, e não houver mais espaço para a fuga?
Pois o opressor que acenais como rei
É o mesmo que vos prende, e com as mesmas mãos,
Que afagam, vos apertam no veneno do conformismo.
E, ao final, o que será de vós, quando já não puderdes mais
Esconder os olhos de sua própria vergonha?
V
(…)
VI
Ó povo, o vosso poder está nas vossas mãos,
Mas vós o entregais como crianças incautas,
Pensando que ao entregá-lo ao tirano
Seréis poupados da dor, mas ao contrário,
Estareis sendo enganados pelo mais doce dos venenos.
O poder que vós detendes, se o usardes com sabedoria,
Pode ser a chama que transforma o mundo,
Mas se o entregardes a outros,
Serão essas mesmas mãos que vos condenarão.
VII
Ah, povo, quando iremos perceber que a verdadeira grandeza
Não está nas promessas que vocês fazem os opressores,
Mas na força que reside na união dos corações livres?
Erguei-vos, não para seguir, mas para liderar,
Não para servir, mas para construir,
E, com isso, libertar-vos da prisão invisível
Que vós mesmos alimentais com vossas próprias mãos.
Pois, na verdade, só a verdade pode tornar-vos verdadeiramente livres,
E vós, que ainda permanecem nas sombras,
Vós sois os únicos capazes de acender a luz.

(Betto Gasparetto- xi/xcvi)

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