(Betto Gasparetto)
Incisão VII. A Voz do Abismo Interior

By Dall-E 3
I
Do âmago da alma, ergue-se um clamor,
Uma voz rouca, profunda, dilacerante,
Ecoa o abismo de um ardor sombrio,
De amor frustrado e ódio retumbante.
*
Ó voz que em mim habita, tão feroz,
Por que ruges contra os céus e contra a terra?
É murmúrio ou grito, em rude atroz,
Que em cada sopro meu peito desterra?
*
Não há apenas rancor ou saudade,
Mas uma mistura insana de ambos os venenos.
É o reflexo da cruel dualidade,
Que em meu peito alterna dores e acenos.
II
Que me força leva ao abismo sombrio,
Onde teu chamado ecoa sem fim?
É, ó voz, o vento gelado e vazio,
Que carrega cinzas de tudo em mim.
*
Mas oh, em tuas sugestões há um segredo,
Uma verdade velada e destrutiva.
Tu falas de amor, e falas de medo,
E de uma paixão que ainda é viva.
*
Tu me recordas os toques passados,
Os beijos que, embora falsos, me ardiam.
E mesmo nos dias mais ensanguentados,
Lembra-me das juras que a vida mentia.
III
Ó abismo, é espelho de minh’alma nua,
Onde o ódio dança com o amor perdido.
E tua voz, qual bruma sob a lua,
Revela o tormento que em mim está contido.
*
Como escapar do teu canto inclemente,
Se em cada nota há vestígios dela?
Tu és a sombra que se faz presente,
Mesmo quando busco romper a cela.
*
Mas há em tua voz, por mais dilacerante,
Uma centelha de força incontida.
Pois mesmo sofrer o amor exultante,
Prova que ainda pulsa a chama da vida.
IV
Ó abismo, tua voz é minha pesar,
mas também o sopro que me mantém vivo.
Pois só quem sente, seja amar ou odiar,
Conhece o peso do existir altivo.
*
Que restou, então, a dualidade cruel,
O canto que em mim jamais se aquieta.
Pois entre o amor sublime e o ódio infiel,
Vive a alma, eterna e incompleta.
(Betto Gasparetto – ix/xcviii)



