10 poemas sobre “A Navalha Tem Dois Lados: O Amor e o Ódio” (03/10)

(Betto Gasparetto)

Incisão III. O Beijo Acorrentado da Serpente

By Dall-E 3

I
Teus lábios, ó cálice de doce agrura,
São abismos onde me lanço cativo.
Neles busquei a redenção futura,
Mas encontrei o toque corrosivo.
*
Oh, veneno suave, em seda envolto,
Que a língua destila com sutil fervor!
Tu, que com beijo me eleva ao alto,
Depois me derruba em dor sem vigor.
*
Como serpente oculta entre as flores,
Teu beijo é promessa de breve rompimento,
Mas atrás consigo os mais negros horrores,
Um juramento que se faz cativo.
II
O que é o amor senão tormento disfarçado?
Que em lábios tão doces seu flagelo guarda?
Teu toque, que julguei ser abençoado,
É lâmina fria que a carne retarda.
*
Ó, beijo infame que me fez tremer,
Na esperança de um êxtase divino,
Transformaste o prazer em rude morrer,
E a glória em cinzas de um triste destino.
*
Que dualidade habita em sua boca?
Pois nela reside tanto o céu quanto o inferno.
Por um momento, a paixão me sufoca;
No seguinte, é o gelo do inverno.
III
E eu, escravo de tão cruel ternura,
Não posso fugir, nem desejo escapar.
Pois mesmo ferido, busco a loucura
De em teus lábios eternamente estar.
*
Por que, ó deusa de insana beleza,
Trouxeste em teus beijos o fel da traição?
Transformaste em sombras minha certeza,
Deixaste em ruínas meu pobre coração.
*
Mas mesmo assim, entre dor e delírio,
Teu beijo é prisão que escolho abraçar.
Pois o amor, mesmo na dor in vítreo,
É chama que insiste em jamais se apagar.

(Betto Gasparetto – ix/xcviii)

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