10 poemas sobre “A Navalha Tem Dois Lados: O Amor e o Ódio” (04/10)
(Betto Gasparetto)
Incisão IV. A Cicatriz da Promessa Quebrada

By Dall-E 3
I
Óh palavra, proferida em juras santas,
Ecoastes em mim como um cântico eterno.
Mas hoje são notas fugazes e tantas,
Cindidas em prantos, moldadas no inverno.
*
“Amar-te-ei até que o tempo desista,”
Juraste com lábios de mel embebidos.
Mas tua promessa, tão bela e malvista,
É hoje um punhal entre os meus sentidos.
*
Que são os juras senão frágeis correntes,
Que, ao menor toque do vento, se partem?
Se a fé se desfaz entre dedos doloridos,
Que resta do amor senão chamas que ardem?
II
Ah, quantas vezes em noites sombrias,
Revivi teu sussurrar, doce engano.
Mas oh, quão rudes tornaram-se os dias
Que ao amor traído tecem seu pano!
*
Teu nome é agora ferida latente,
Gravado a ferro em minh’alma partida.
E a promessa que outra era reluzente
Hoje é cicatriz de uma dor incontida.
*
Como ousaste, ó traidora sublime,
Erguer castelos de sonhos em vão?
Se ao menor tremor o encanto se exprime
E as torres desabam sobre o coração.
III
Oh, juramento, tão doce e perverso,
Foste a luz que guiou minha desventura.
Tua quebra é o verso do amor submerso,
O laço rompido da dor mais impura.
*
E, no entanto, mesmo em tua perfeição,
Eu busco na sombra vestígios do brilho.
Pois na dor, o amor é tênue delírio,
Um cântico eterno em tortuoso exílio.
*
Por que a promessa não é verdade?
Por que o amor não resistiu ao abismo?
Hoje sou náufrago da tua falsidade,
Perdido no mar do meu próprio otimismo.
IV
Que restou, então, a cicatrizante pungente,
Memória cruel de um amor que encontrou.
Pois mesmo partida, a alma ainda sente
Que a dor, no fim, o amor superou.
(Betto Gasparetto – ix/xcviii)
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