10 poemas sobre “A Navalha Tem Dois Lados: O Amor e o Ódio” (05/10)

(Betto Gasparetto)

Incisão V. O Ódio que Brota do Silêncio

By Dall-E 3

I
Ah, silêncio, carrasco das esperanças,
Que desces qual manto sobre a palavra.
Em teu vazio, mil dores se lançam,
E a alma em desespero se desagrava.
*
Por que calastes, ó voz tão querida,
Que outrora em meu peito cantava o amor?
Hoje é ausência, um eco sem vida,
Uma sombra fria que exala o rancor.
*
Teu silêncio é punhal em lâmina nua,
Que corta as fibras do meu coração.
Em tua mudança, a noite flutuante,
Trazendo comigo a mais vil solidão.
II
Foi ali, no abismo de sua omissão,
Que o ódio nasceu, criatura feroz.
Um monstro que rasga sem compaixão,
Que cresce em silêncio e devora a ternura.
*
Ó, como amarga é a dor de não ouvir
A doce melodia da tua presença!
E quão terrível é o ódio a consumir
A lembrança de sua voz em clemência.
*
Teu silêncio não é pausa, é sentença,
Um veredito cruel que a vida estanca.
Cada instante que emudece a tua crença
É um golpe que em meu ser se crava e espanca.
III
Mas mesmo o ódio, que brota insano,
Não apaga o amor que ainda persiste.
Pois no fundo, este duelo tirano
Mostra que em meu peito o amor resiste.
*
Oh, como pode a ausência ser tão alta,
Preencher ou ar com peso infinito?
Teu silêncio é muralha que exalta
A dor de um amor que hoje habita o conflito.
*
Que venha o som, mesmo em gritos ferozes,
Que destrua o vazio onde o ódio floriu.
Pois na tormenta das vozes mais ásperas,
Prefiro o clamor ao silêncio que feneceu.
IV
Silêncio, tu, cruel artifício do rancor,
É sombra que engendra o ódio e o vazio.
Mas mesmo em ti, resta a marca do amor,
Que sobreviveu à dor deste desvario.

(Betto Gasparetto – ix/xcviii)

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