10 poemas sobre “A Navalha Tem Dois Lados: O Amor e o Ódio” (06/10)

(Betto Gasparetto)

Incisão VI. O Altar das Memórias Profanas

By Dall-E 3

I
Ergui-me ao altar das memórias vencidas,
Relíquias de um tempo em dourada ilusão.
Ali prostrei-me, em dores esquecidas,
E ofertei minh’alma em pura contrição.
*
Sobre a pedra fria do passado antigo,
Vi teus gestos gravados em sombras densas.
Teu sorriso, outrora doce abrigo,
Hoje é máscara de promessas tensas.
*
Cada toque teu, outrora divino,
Agora é espinho que rasga a lembrança.
E o altar, que foi o meu céu cristalino,
É templo profano de tua mudança.
II
Por que, ó deusa de meu amor eterno,
Profanaste o sagrado que entre nós havia?
Transformaste o calor em inverno,
E o templo em ruína de fria agonia.
*
Sobre as cinzas do que um dia sonhei,
Vi teu vulto dançando em zombaria.
Como foste o sol que eu tanto adorei,
Se hoje é treva, tormento e heresia?
*
Oh, memórias, vós que tanto me afligis,
Sois espelhos quebrados de glórias passadas.
Cada fragmento, cruel, contradiz
O amor que em minha alma fora semeada.
III
Teu nome ecoa entre as colunas partidas,
Como um canto funéreo em vasto vazio.
E minhas lágrimas, em preces contidas,
São o rio que o altar sofreu.
*
Que sejam, pois, queimadas as memórias,
Queimadas na chama do ódio latente.
Pois nelas estão relacionadas as mais vis histórias
De um amor que morreu sob seu olhar ausente.
*
Mas oh, mesmo em meio ao tormento profano,
Ainda resta a centelha do que fomos.
Pois o amor, que é tanto castigo quanto o alento,
Resiste às ruínas de nossos assomos.
IV
Altar das memórias, templo arruinado,
Acolhe meu pranto e meu último lamento.
Pois mesmo partido, o amor é sagrado,
E vive em meu peito como eterno tormento.

(Betto Gasparetto – ix/xcviii)

Deixe um comentário