PORQUE OS VENTOS SOPRAM MAIS FORTE, FICAMOS CALADOS NO TEMPO! – 01/12
(Betto Gasparetto)
PÉTALAS AO VENTO – Introito

By NC Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Ó, que visão se revela neste silêncio,
Onde o dorso da tarde se curva, tremor sutil
De um amor que se esvai, como brisa errante
A tocar as pétalas que caem do céu sombrio.
A jovem, sem pressa, repousa no solo,
No leito das lembranças que o tempo esqueceu,
Sua veste singela e os cabelos que dançam
Aos suspiros de uma saudade que não se apaga.

À luz dourada que banha a frágil sala,
Entre sombras que se estendem como dedos de um passado,
Ela repousa, alma etérea, quase um sonho,
Como se o mundo ao redor fosse tão distante,
E ela, mera sombra entre as ruínas,
Respondesse ao clamor das pétalas que caem.

Vê, nas mãos, a ânsia de um amor perdido,
Que flui nas veias como água de um rio seco.
Os olhos que contemplam, com devoção e dor,
O altar de vestígios — relicários de outrora,
Onde o vento, inconstante e cruel,
Sussurra nomes de um tempo que já não existe.
Memórias repousam na superfície da madeira antiga,
Fluídas como as flores secas que adornam o espaço.
Cada chama, uma lágrima suspensa no ar.

E no canto, entre as sombras,
Onde as rochas caídas guardam segredos,
A presença do mistério dança à luz moribunda,
Como um eco de um grito que já não se ouve,
Mas permanece reverberando na essência do silêncio.

Assim, a jovem, sentada entre as pétalas e o tempo,
Encontra-se, ela mesma, perdida nas correntes da saudade,
Entre o que foi e o que jamais retornará.
A luz que a abraça, como uma memória encantada,
É a mesma que se desfaz, deixando na sala
O suave rastro da efemeridade,
Onde as pétalas ao vento, flutuando,
Sussurram promessas esquecidas
Que o coração, frágil como o último suspiro,
Ainda deseja ouvir.

Oh, não há mais palavras,
Apenas a doce dor daquilo que se foi.
Em meio à quietude que se estende como um véu de seda,
A jovem repousa, seus pensamentos entrelaçados
Com o eco distante de vozes que já não tocam mais.
Os anos passaram, mas a dor do passado permanece
Como as cinzas que resistem ao sopro do vento.
Suas mãos, frágeis, tremem levemente ao tocar
As pétalas espalhadas no chão,
Cada uma delas uma história que desabou sem aviso,
Como um amor que se desfaz na brisa sem fim.

O sol, já a ponto de se esconder no horizonte,
Pinta o ambiente com uma luz suave e morna,
E tudo ao redor parece se aquecer sob seu olhar triste.
Os móveis antigos, cobertos pela poeira do tempo,
Guardam em seus cantos as memórias de um lar
Que nunca mais será o mesmo,
Como os sussurros de um nome, já perdido,
Mas que ainda se guarda nos recantos da alma,
Onde o eco nunca morre, mas apenas se transforma.

E, ao levantar o olhar,
Ela vê o reflexo das velas no vidro empoeirado,
Chamas que dançam como fantasmas de um passado
Que ainda se recusa a se dissipar.
Cada vela, um farol, um lembrete de tudo o que se foi,
Cada centelha, uma promessa feita e quebrada,
Cada chama, um desejo que jamais se realizou.
E, contudo, no coração da jovem,
Há uma chama que arde suavemente,
Como se as pétalas do vento ainda lhe sussurrassem
Que, mesmo no abandono, ainda há beleza a ser vivida.

O ar, carregado de poeira e saudade,
Parece contar-lhe histórias de amores antigos,
De momentos em que o céu parecia mais próximo,
De risos que ecoavam nas paredes de pedra,
Agora mudas, agora vazias.
E o altar, com suas velas, flores secas e relicários,
Ergue-se como uma ponte entre o mundo visível e o invisível,
Onde o tempo se curva e as sombras se tornam luz,
Onde a memória, embora cansada, não desiste de existir.

O vento, que agora entra pela janela entreaberta,
Carrega consigo o perfume das pétalas caídas,
Mistura-se com o aroma das flores vermelhas
Que trepam pelas paredes, desafiando o abandono.
E a jovem, envolta em sua quietude, sente-se
Parte desse fluxo constante, dessa dança
Entre a presença e a ausência, entre a dor e a beleza,
Sabendo, no fundo de seu ser, que tudo o que é belo
É também efêmero, como as pétalas ao vento.

Assim, no silêncio que paira como uma prece não dita,
Ela permanece, uma sombra entre as sombras,
Aguardando, quem sabe, a chegada de um novo amanhecer,
Ou, quem sabe, a despedida definitiva de um amor
Que, como o vento, não pode ser tocado,
Mas cujas lembranças continuam a se espalhar
Nas pétalas, nas paredes, nos suspiros do ar.
E mesmo que o tempo passe e o vento se acalme,
Ela saberá que, por mais que as pétalas se dispersem,
Elas sempre voltarão, suavemente, a tocar o chão.
(Betto Gasparetto – viii/xviii)
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