PORQUE OS VENTOS SOPRAM MAIS FORTE, FICAMOS CALADOS NO TEMPO! – 02/12

 (Betto Gasparetto)

Euphoria nr. I – PÉTALAS AO VENTO – A Finitude

By NC Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

A tarde estendia-se sobre o horizonte com um manto de cores suaves, enquanto a jovem, ainda perdida em seus pensamentos, permanecia no mesmo lugar, onde as pétalas haviam caído. O ar parecia pesado, como se carregasse as memórias não faladas, aquelas que, mesmo com o passar dos anos, ainda não haviam encontrado descanso. Ela não se movia, como se o peso do passado tivesse se tornado uma parte intrínseca de sua essência, entrelaçada com a poeira e o silêncio daquele ambiente antigo.

Os olhos, ainda fixos no altar, não buscavam mais respostas, mas sim uma forma de aceitação. O altar, com suas velas baixas, algumas já apagadas pelo tempo, parecia refletir a condição do coração da jovem: em um estado de transição, onde o passado e o presente se confundem. As flores secas, que antes tinham uma vida vibrante, agora eram apenas sombras de algo que um dia foi belo. E, como aquelas flores, ela também sentia que estava prestes a se desintegrar na vastidão de um tempo implacável.

O silêncio no ar era profundo, mas não solitário. Parecia que ele carregava consigo o peso de todas as palavras não ditas, aquelas que se perdem nas noites escuras, nas conversas interrompidas, nas promessas quebradas. A jovem sabia que, mesmo no silêncio, havia uma conversa acontecendo. Cada pétala caída, cada fio de poeira suspenso no ar, cada rachadura na parede era um eco de algo que já não poderia ser tocado.

Seus dedos, delicados como as pétalas que caíam ao seu redor, tocavam a superfície fria da mesa onde o altar estava posicionado. Era um toque leve, quase como se temesse acordar a dor que ainda residia em seu peito. Sua mente se perdia entre lembranças, imagens difusas de tempos que pareciam já pertencentes a outra vida. Havia algo de intransigente no modo como o passado se impunha sobre o presente, como se as memórias fossem cadeias invisíveis que a mantinham atada a um momento de sua vida que não queria mais reviver.

Ao longe, os vasos com flores vermelhas continuavam a crescer nas paredes, suas raízes profundas, como se buscassem algo além do que a terra oferecia. Elas, como ela, tentavam encontrar um caminho, uma direção em meio à escuridão. Mas as flores não sabiam que, por mais que tivessem crescido e se espalhado, elas estavam presas àquele espaço, como uma prisão invisível.

O ambiente, tão carregado de símbolos e significados, parecia criar uma sensação de total introspecção. Era como se o tempo tivesse se concentrado naquele único instante, onde passado e presente se entrelaçavam, onde cada objeto, cada sombra, cada fragmento de luz se tornava uma metáfora para o que se passava dentro dela. O altar, com suas velas e relicários, representava as marcas do tempo, os vestígios de algo que se foi e que, ainda assim, continuava vivo de alguma forma, na memória.

A jovem, agora, fechava os olhos por um breve momento, tentando se libertar daquelas correntes invisíveis que a mantinham presa ao passado. No entanto, algo a impedia. Talvez fosse a saudade, talvez o arrependimento, ou talvez a simples constatação de que não se pode apagar o que já foi vivido. Ela sabia que, por mais que tentasse, as lágrimas que não haviam sido ditas não poderiam ser guardadas para sempre. Elas, como as pétalas ao vento, teriam que cair.

E enquanto ela permanecia ali, envolta pelo crepúsculo e pelas sombras que preenchiam o espaço, um novo pensamento surgia em sua mente: talvez fosse hora de deixar ir. Talvez fosse hora de permitir que o eco das lágrimas não ditas finalmente encontrasse seu descanso, dissipando-se no ar, como a última pétala a cair.

Assim, a jovem levantou-se lentamente, seus passos silenciosos sobre as pétalas que cobriam o chão, enquanto, ao longe, o vento começava a acariciar as flores vermelhas, como se lhe dissesse que, finalmente, o ciclo estava completo. Ela, agora, sabia que poderia partir, sem as amarras do passado, sem as palavras que nunca foram ditas, mas com a serenidade de quem entende que o silêncio também carrega consigo a verdade.

(Betto Gasparetto – viii/xviii)

Deixe um comentário