Arquivo para 11 de março de 2025

PORQUE OS VENTOS SOPRAM MAIS FORTE, FICAMOS CALADOS NO TEMPO! – 03/12

Posted in Sem categoria on 11 de março de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

Euphoria nr. II – PÉTALAS AO VENTO – A Magnitude

By NC Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

No silêncio que preenche a sala com uma suavidade quase palpável, a jovem se encontra sozinha, cercada apenas pelas sombras de um passado distante. A luz do entardecer, suave e dourada, penetra pela janela empoeirada, criando uma dança de sombras e brilhos sobre as paredes desgastadas. O ar parece carregar a leveza de um segredo não dito, e o chão, coberto por pétalas desfeitas, reflete a fragilidade de um momento que se perde no tempo, mas que, ao mesmo tempo, parece eterno. Cada pétala caída é um eco de algo que foi belo e agora se desfaz, um resquício de um amor que se extinguiu como as flores no fim da estação.

A linda jovem, com seus cabelos longos e levemente ondulados, está sentada no chão, sua figura quase etérea no ambiente silencioso. Ela usa uma blusa azul, simples, mas que parece capturar a essência da calmaria que a envolve, e suas calças de tecido leve fluem suavemente ao redor de suas pernas, como se a própria brisa tivesse se misturado à sua roupa. Seu olhar está perdido no vazio, mas sua mente parece viajar por um caminho distinto, como se ela estivesse distante do presente, navegando pelas águas turvas das memórias.

As pétalas, espalhadas por todo o chão, são um reflexo de sua alma. Algumas estão ainda vibrantes, como se o toque da luz do entardecer fosse capaz de manter um pouco de sua beleza intacta, enquanto outras estão desbotadas e secas, a fragilidade de seu ser exposta pela passagem do tempo. Elas não têm mais o perfume das flores vivas, mas ainda carregam em sua essência a lembrança do que foram, e, como ela, estão ali, aguardando, aguardando o vento que as levará, esperando o movimento que as retirará da quietude.

O salão à sua frente, com candelabros apagados e flores secas, parece ser o único objeto capaz de refletir algo além do momento presente. Ele é um lembrete do que foi, talvez um vestígio de uma reflexão, uma oração ou um pedido de algo perdido. Retratos de um tempo que ela talvez já tenha esquecido, ou que já não importa mais. O salão está ali, como um testemunho, mas não mais como um lugar de leitura, pois o que ela procurava naquele objeto já não a preenchia mais.

Sua respiração, suave e cadenciada, se mistura ao som do vento que, agora, começa a entrar pela janela entreaberta. As pétalas começam a se mover, como se o vento tivesse decidido acordá-las, fazendo-as dançar no ar, deixando uma leve fragrância de saudade no ambiente. O vento, esse amigo invisível que atravessa a sala, parece trazer consigo uma mensagem – uma mensagem que ela não entende completamente, mas que a envolve de uma forma silenciosa. Ele a chama para fora, para além daquelas paredes, para além do que ela conheceu.

Ela não se move imediatamente, como se precisasse absorver cada segundo daquele momento. Mas algo dentro dela começa a mudar. O vento, tão suave, mas cheio de uma força inusitada, toca-lhe a pele com a leveza de uma promessa não dita. A sala, com seus móveis envelhecidos e o ar carregado de histórias esquecidas, começa a se desvanecer à medida que ela sente o chamado do futuro, o convite para se libertar daquilo que a aprisionava.

A jovem, então, olha para o retrato uma última vez, como se se despedisse não de um objeto, mas de um pedaço de sua própria história. Ela não precisa mais dele. O vento a guiaria agora. As pétalas, que um dia foram flores vibrantes, agora são apenas fragmentos de algo que se foi. Mas, ainda assim, elas têm algo a lhe dizer: que o que se perde ao vento, não se perde completamente. O que se desprende, encontra seu caminho.

E, ao se levantar lentamente, ela se permite deixar o lugar, seguindo o rumo que o vento indica. Porque, afinal, as pétalas caídas no chão não são um fim, mas um recomeço. E o vento, que sempre soubera aonde ir, agora leva consigo as últimas lembranças.

(Betto Gasparetto – viii/xviii)