(Betto Gasparetto)
Euphoria nr. III – PÉTALAS AO VENTO – A Virtude

By NC Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
A luz da manhã se infiltra pela janela quebrada, agora com mais força, desafiando o que restava da noite e das sombras que se prolongavam nas esquinas da sala. O sol, com sua aurora tímida, toca o chão onde as pétalas, em sua quietude, parecem se aquecer na presença da luz, como se a promessa do novo dia fosse capaz de restaurar o que foi perdido. Mas, para a jovem, o calor do sol não trazia mais a mesma sensação de consolo. Ela se mantinha ali, no meio das pétalas espalhadas, com os olhos distantes, fixos em algo que já não estava mais presente, mas que, de alguma forma, ainda aprisionava.

O vento, agora mais forte, faz as pétalas ao redor dela dançarem como pequenas borboletas, flutuando sem direção, sem destino. O vento, com sua força invisível, parece trazer consigo um convite para o movimento, para a mudança que ela tem evitado. Mas a jovem ainda hesita, seu coração dividido entre o que ela conhece e o que o futuro lhe oferece. Cada pétala que se desloca é como uma lembrança, uma sensação que vem à tona, um desejo de permanecer na segurança daquilo que é familiar, embora obsoleto.

Ela se levanta lentamente, seus passos suaves, como se não quisesse perturbar a serenidade do ambiente. Mas o ar, carregado com o perfume das flores que já se foram, parece insistir para que ela siga em frente. O salão nobre atrás dela, agora envolto em uma luz suave, parece mais uma relíquia do que um objeto de adoração. As luzes, que antes ardiam com fervor, estão agora apagadas, suas chamas extintas pela passagem do tempo. As flores secas, antes um símbolo de devoção, estão desfeitas, murchas, como a juventude que também se esvai com a passagem dos anos. Não há mais promessas a cumprir ali, apenas vestígios de um amor que se foi, de uma fé que não conseguiu se sustentar.

Ela caminha até a janela, os olhos fixos no horizonte distante, onde o céu se estende em um azul profundo e quase inatingível. O vento a acompanha, tocando sua pele com a suavidade de uma despedida, como se sussurrasse que é hora de deixar ir, que o ciclo está completo. Ela respira fundo, sentindo a brisa nos cabelos, a sensação de algo novo prestes a acontecer. E, por um breve momento, ela se perde na dança das pétalas, observando-as como se fossem mensageiras de algo maior, algo que ela ainda não compreendia completamente.

O vento, com sua força constante, parece empurrá-la para fora, mas ela ainda se resiste. Cada pétala que cai é como uma memória que ela tem medo de soltar, cada um desses pequenos fragmentos de flor é uma parte de si mesma que ela teme perder. Mas, à medida que observa as pétalas flutuando para longe, ela entende que a vida não é feita de permanências. O que é belo, como a flor, precisa murchar para dar espaço ao novo. O que é efêmero não é menos precioso; ao contrário, é a sua fragilidade que lhe confere valor.

A jovem, com os olhos ainda voltados para o horizonte, sente uma mudança dentro de si. O medo, embora presente, já não é tão forte. O vento, agora um companheiro constante, a guia para a porta, para o além da sala, para o além das pétalas que caem. Ela sabe que as lembranças não se apagam, mas se transformam. E, ao dar o primeiro passo em direção ao mundo exterior, ela se dá conta de que, ao contrário do que pensava, as pétalas não se perdem no vento; elas seguem em direção a algo novo, algo que está por vir.

O espaço, antes repleto de lembranças e saudades, agora parece abrir-se diante dela, uma tela em branco esperando para ser preenchida. O vento, que antes era uma força que a arrastava sem direção, agora se torna um guia, uma presença acolhedora. A jovem caminha com mais confiança, sem olhar para trás, sabendo que as pétalas ao vento não são um fim, mas um recomeço, e que, assim como o vento, ela também encontrará o seu caminho.
(Betto Gasparetto – viii/xviii)