PORQUE OS VENTOS SOPRAM MAIS FORTE, FICAMOS CALADOS NO TEMPO! – 06/12
(Betto Gasparetto)
Euphoria nr. V – PÉTALAS AO VENTO – A Solicitude

By NC Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
O amanhecer chegava lentamente, trazendo com ele a luz suave de um novo dia. Mas para a jovem, não era a luz do sol que a despertava, mas a quietude da alma, que finalmente encontrava paz. O vento, que antes parecia ser um mero sussurro distante, agora se tornava uma presença constante, como se ele soubesse, mais do que ninguém, o caminho que ela deveria seguir. E, assim como as pétalas que se desprendiam do ramo, ela sentia que algo dentro dela também estava se despojando – uma leveza que, antes, parecia inalcançável.

As sombras da noite ainda pairavam nas esquinas da sala, mas a jovem já não temia o escuro. O mistério que antes lhe causava angústia agora a preenchia de um modo diferente, como se ela tivesse começado a compreender as verdades escondidas nas entrelinhas da vida. O salão nobre, que antes parecia ser o centro de sua devoção e melancolia, agora parecia distante, como se tivesse cumprido seu papel e, com isso, deixado a jovem livre para seguir adiante. Os relicários, as luzes, as flores secas – tudo aquilo era parte de um ciclo que chegava ao fim. Era o último ato de uma história que ela havia vivido, mas que agora se dissolvia nas brisas do vento.

Ao olhar pela janela, seus olhos encontraram o mundo lá fora, vasto e desconhecido, mas não mais assustador. As flores vermelhas que ainda rastejavam pelas paredes, embora frágeis, continuavam a crescer, como se desafiando a própria decadência do tempo. Elas, assim como ela, haviam aprendido a se adaptar, a florescer mesmo nas circunstâncias mais inesperadas. E nesse momento, a jovem percebeu que a vida não era sobre permanecer imóvel, não era sobre resistir ao que o vento trazia. A vida, ela entendia agora, era sobre deixar-se levar, sobre dançar com o que não podia ser controlado.

O vento, mais forte agora, entrou pela janela aberta e espalhou novas pétalas pelo chão. Mas essas não eram como as outras, aquelas que caíam de árvores e flores, fracas e vulneráveis. Essas eram pétalas que ela mesma havia formado, frutos de uma vida que, agora, se permitia renascer. Cada pétala no chão, agora, era um símbolo de liberdade, um lembrete de que até as coisas mais belas, mais efêmeras, merecem ser vividas em sua totalidade, sem arrependimentos, sem medo.

E, à medida que o vento continuava a dançar ao redor da sala, a jovem sentiu que, finalmente, poderia andar de novo. Não mais carregando as pedras do passado, mas com a leveza de alguém que aprendeu a deixar ir. O salão nobre, as luzes, as flores secas – tudo isso já não tinha poder sobre ela. Ela era agora a autora de sua própria história, sem mais sombras a obscurecer seu caminho.

O vento, como uma presença invisível, parecia guiá-la para fora do cômodo, para além da janela, onde o mundo aguardava com seus próprios mistérios, suas próprias perguntas e respostas. E, assim, com um passo silencioso, a jovem atravessou o limiar daquele espaço antigo, onde as pétalas ao vento haviam se acumulado, e, pela primeira vez, olhou para o futuro com um sorriso sereno no rosto, sabendo que tudo o que era belo no passado agora se transformava em uma parte de sua essência.

Ela sentiu, então, uma tranquilidade profunda. O vento a acompanhava, suas pétalas caindo ao seu redor como uma dança invisível, um tributo àquilo que havia sido e àquilo que ela agora se tornava. O caminho adiante, agora, não parecia tão incerto. O eco das lágrimas não ditas já não ressoava mais dentro dela, pois a jovem havia encontrado, enfim, a liberdade – não na busca incessante pelo que se foi, mas na aceitação serena do que estava por vir.

E, enquanto o sol começava a se levantar, ela caminhava pela estrada, com os olhos voltados para a imensidão do horizonte, onde, de algum modo, as pétalas ao vento sempre se reinventam, sempre encontram novos caminhos a seguir. Ela sabia, então, que a dança das pétalas nunca cessa. Elas simplesmente seguem o vento, para onde ele a levar.
(Betto Gasparetto – viii/xviii)
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