(Betto Gasparetto)
Euphoria nr. X – PÉTALAS AO VENTO IX

By NC Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
O amanhecer despontava, suave e imperceptível, como se a luz que surgia não fosse mais do que um reflexo de uma verdade interna que, finalmente, se revelava. O campo, ainda envolto em sombras delicadas, parecia aguardar a jovem, que, com os pés tocando a terra fria, sentia o peso do ontem se dissolver a cada passo. O vento, agora mais brando, acariciava seus cabelos, como se, a cada sopro, lhe concedesse a permissão para seguir. As pétalas que, durante tanto tempo, haviam flutuado ao seu redor, estavam agora em um estado de completa dispersão, como se fossem as últimas marcas de algo que havia sido vivido em sua totalidade e agora, silenciosamente, desaparecia.

Ela caminhou sem pressa, os olhos fixos no horizonte, onde o céu começava a se tingir de um tom mais quente, como se o próprio dia começasse a despertar para o novo ciclo. Não havia mais vestígios daquelas paredes antigas, nem do salão nobre que, em outros tempos, guardara seus desejos e lamentos. Agora, a jovem era como as pétalas ao vento – sem direção, sem amarras, mas com a certeza de que, ao ser levada pela brisa, algo belo e profundo nasceria dessa jornada. O vento, sempre presente, parecia agora ser o guia de sua alma, conduzindo-a sem pressa, sem julgamento, apenas com a serenidade do momento que se desdobrava.

O campo ao seu redor se estendia, infinito em sua simplicidade, e ela sentia como se o próprio chão sob seus pés fosse um reflexo de sua própria transformação. Cada passo dado era um passo para longe do que fora, mas também um passo para perto de algo mais pleno, mais verdadeiro. Não havia mais medo do que o futuro poderia trazer, pois a jovem compreendia, com a sabedoria que a vida lhe concedera, que o vento não leva as pétalas para destruir, mas para revelá-las em toda sua verdadeira essência.

A luz da manhã, agora mais forte, iluminava as pétalas dispersas pelo campo, dando-lhes uma nova vida, um brilho sutil que as tornava mais belas, mais intemporais. Ela parou, por um momento, e olhou para aquelas pétalas, agora tocadas pela luz suave do novo dia. Era como se, ao se despir do passado, ela também se tornasse parte desse ciclo eterno de transformação. As pétalas, caindo e se espalhando, eram agora testemunhas de um processo que não tinha fim, um processo que refletia a própria essência da existência humana.

O vento, agora mais forte, parecia dançar ao seu redor, tocando a pele da jovem com a leveza de uma promessa, de um caminho que ela ainda não podia ver, mas que já sentia em seu coração. O campo, silencioso, parecia absorver as últimas palavras que ela não havia dito, as últimas lembranças que ainda restavam. Mas, com cada novo sopro do vento, essas palavras e essas lembranças se dissipavam, tornando-se parte do vasto silêncio que a cercava. Não havia mais necessidade de palavras; o vento, como um amigo fiel, já dizia tudo o que ela precisava ouvir.

Ela fechou os olhos por um instante, permitindo que a brisa tocasse sua face, levando consigo as últimas sombras da dúvida e da tristeza. O vento não trazia respostas, mas sim a certeza de que a busca não era mais necessária. Não era o futuro que ela temia, nem o passado que ela lamentava. Era o presente, o simples fato de estar ali, com o vento, com as pétalas, com o campo diante de si, que lhe dava a verdadeira paz.

Quando ela abriu os olhos, o campo à sua frente parecia ter se transformado. Não era mais um espaço vazio, mas um espaço de possibilidades, onde cada passo poderia ser dado sem receio, sem hesitação. O vento, que antes parecia ser uma força externa, agora parecia ser uma extensão de seu próprio ser, algo que a impulsionava, a guiava, a fortalecia. Ela estava pronta, não porque tivesse todas as respostas, mas porque, pela primeira vez, compreendia que a jornada não é feita de certezas, mas de confiança. Confiança no que o vento lhe traria, confiança no caminho que, embora invisível, estava ali, diante dela.

As pétalas ao vento não eram mais uma metáfora de perda, mas de renovação. O vento não as destrói, ele as liberta. E, ao deixar-se levar por ele, ela também se liberta. O futuro, agora, não era mais um desconhecido temido, mas um convite sereno, um convite a viver, a dançar com o vento, a seguir a jornada sem saber onde ela terminaria, mas com a certeza de que ela seria, enfim, suficiente.

Ela sorriu, pela última vez olhando para as pétalas que dançavam à sua volta, e, com os pés firmemente plantados na terra e o coração tranquilo, deu o primeiro passo. O vento a seguiu, e com ele, ela sabia que suas pétalas, como suas memórias, voariam, se espalhariam, mas sempre retornariam ao mesmo ciclo – um ciclo eterno de vida, de amor e de libertação.
(Betto Gasparetto – viii/xviii)