(Betto Gasparetto)
Euphoria nr. IV – PÉTALAS AO VENTO – A Quietude

By NC Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Na quietude da tarde que morria, como um último suspiro do sol antes de se perder nas sombras da noite, a jovem permaneceu em pé, agora diante da janela que se abria para o mundo exterior. A sala, antes densa com a nostalgia do passado, parecia agora mais distante, como se o tempo, finalmente, tivesse desistido de insistir em se manter. O vento, suave e constante, entrava pela fresta da janela, levando consigo um resquício de frescor, como se buscasse purificar o ambiente. Mas, ao tocar seu rosto, ela sentiu que não havia mais necessidade de purificação, pois já não restavam mais culpas a serem expurgadas, nem lágrimas a serem vertidas.

O cheiro das flores vermelhas que ainda se espalhavam pelas paredes enchia o ar com uma doce fragrância de um amor que se extinguia com a mesma suavidade com que o vento acariciava as pétalas caídas no chão. Essas flores, que haviam começado sua jornada como simples sementes, agora se erguiam, desafiando as intempéries do tempo, como a jovem que, embora marcada pelas cicatrizes do passado, permanecia firme em sua contemplação silenciosa. Ela sabia que, tal como as flores, algo dentro dela também havia crescido. Algo belo, talvez, algo ainda desconhecido. Talvez fosse a aceitação.

Ela olhou para as pétalas que cobriam o chão, um tapete de cores desbotadas, como as memórias que se dissolvem na mente com o passar dos anos. Cada uma delas, agora fragilizada, era um reflexo das palavras não ditas, dos amores que se perderam, das promessas que nunca se cumpriram. Mas, à medida que o vento as fazia dançar, ela compreendeu que essas pétalas, embora frágeis, também carregavam consigo um valor inestimável. Elas haviam sido, por um momento, o reflexo de algo imenso. Algo que, por mais efêmero que fosse, ainda fazia parte dela.

Ela levantou uma mão delicada, quase como se quisesse tocá-las, mas, em vez disso, deixou que o vento as conduzisse para longe. Era como se, ao permitir que as pétalas se fossem, ela também estivesse permitindo que seu passado se desfizesse, dissipando-se no ar, como uma memória que perde sua forma ao ser exposta à luz. O vento, agora mais forte, sussurrava segredos que só ele sabia, e a jovem, sentindo o toque da brisa em seus cabelos, deixou-se perder nesse momento de introspecção, com a mente a vagar por terras distantes, por mares longínquos, onde os amores se renovam e as dores se transformam em luz.

O salão nobre atrás dela, agora iluminado apenas pela chama trêmula das luzes, parecia mais distante, como se, ao soltar as pétalas ao vento, ela também estivesse libertando a última conexão que ainda a ligava àquele lugar. O salão nobre, com suas flores secas e relicários esquecidos, era agora apenas uma recordação, um pedaço do passado que ela finalmente havia aceitado. A memória daqueles que haviam passado, das vidas que haviam tocado a sua, agora não a consumia mais. Ela sabia que o eco das lágrimas já não precisava ser ouvido. O silêncio que antes a aprisionava agora a envolvia com a suavidade de um abraço, convidando-a a seguir em frente, a seguir para onde o vento a conduziria.

O ambiente, com suas paredes desgastadas e móveis envelhecidos, já não a aprisionava. Ao contrário, agora ela via aquilo tudo com um olhar sereno, como se cada rachadura na madeira, cada sombra nas paredes, fosse parte de uma obra inacabada, mas bela. O velho cômodo, com sua atmosfera de abandono e mistério, era agora o palco de uma nova história, uma história que ela escreveria com os passos que tomasse para fora daquelas quatro paredes.

O vento, como um amigo silencioso, sussurrava palavras que a jovem agora entendia: “O tempo, tal como as pétalas, se vai. Mas o que permanece é a essência daquilo que fomos. O que permanece é aquilo que decidimos carregar conosco. E tu, minha amiga, decidiste carregar a leveza.” Ela sorriu, pela primeira vez naquele dia, com um sorriso que não carregava tristeza, mas uma profunda gratidão. O vento a acariciava, levando consigo a última pétala, a última lembrança.

E, finalmente, ela se virou para a porta, pronta para seguir adiante. Porque, ali, naquele espaço onde passado e presente se encontravam, ela havia aprendido a lição mais importante de todas: a beleza não está nas coisas que permanecem, mas nas que se vão. E, ao se perder nas pétalas ao vento, ela se encontrou em um lugar onde a saudade já não tinha mais poder sobre ela. O vento a guiaria para um futuro, suave e sereno, onde as pétalas, assim como o tempo, continuariam a dançar, mas sem nunca mais voltar.
(Betto Gasparetto – viii/xviii)


































