Cartografia do Beijo Inaugural
(Betto Gasparetto)

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I
No teu semblante a manhã se faz mais clara,
E o céu declina, tímido, ao redor.
O ar se veste de brisa que declara
A eternidade simples do amor.
Teu passo acende colunas de alegria,
E cada rua aprende a te seguir.
O chão respira um perfume de harmonia,
E a tarde esquece a pressa de fugir.
Nos lábios teus repousa um continente,
Onde a ternura funda a capital.
E o beijo, navegante diligente,
Descobre um porto manso e ancestral.
Em cada sílaba tua, um sino doce,
Convoca as horas para o mesmo canto.
O coração se aquieta e se endoça,
Como uma fonte antiga sem quebranto.
Teus dedos, leves, tornam-se roteiro
Para a viagem íntima do instante.
Eu leio, em tua pele, o verdadeiro,
E tudo o mais se torna variante.

II
Se o vento dobra a esquina do destino,
Teu nome ancora firme a embarcação.
Eu sigo a rota do teu desatino,
Que é lucidez em plena comoção.
Nos teus ouvidos mora um mar antigo,
Com conchas que murmuram nosso enredo.
Ali me deito, náufrago e abrigo,
E encontro a paz na dobra do teu dedo.
O beijo inaugura o mapa do impossível,
Faz do horizonte a curva do teu riso.
E aquilo que julgávamos indizível
Vira a palavra exata do improviso.
Teu corpo é geografia luminosa,
Com vales de descanso e altos cimos.
Na encosta do teu ombro nasce a rosa
Que faz mais leve o peso dos destinos.
Teus olhos, dois astrais de mansidão,
Governam a maré do meu desejo.
E a noite, quando chega, em comoção,
Se rende à tua luz, inteiro ensejo.

III
A pele guarda um código secreto,
Que o tempo, generoso, não decifra.
Mas quando tocas, tudo fica correto,
Como um acorde puro que pacifica.
Se a chuva cai, prometo a ti meu ombro,
E um teto de esperança em cada gesto.
E se o verão cansar-se de assombro,
Teu riso há de trazer o dia honesto.
Há ruas que só levam para a tarde
E ruas que regressam para o mar.
A nossa, em doce nó, tudo resguarde,
Pois escolheu, em nós, permanecer.
Assim cultivo a calma do teu nome,
Como quem planta abrigo para o inverno.
O coração, enfim, desaprende a fome,
E aprende a ser, contigo, mais eterno.
Se algum rumor de sombra nos tocar,
Hás de encontrar em mim porto e braceiro.
Porque o amor, nascido para durar,
É casa aberta, pão, água e luzeiro.

IV
No beijo inaugural cabem auroras,
Cabem promessas, cabem redescobertas.
E mesmo quando o mundo fecha portas,
Em nós permanecem janelas abertas.
Teu passo escreve uma caligrafia
Que só meus olhos sabem traduzir.
E o corpo todo inventa uma harmonia
Capaz de redizer e redimir.
Quando anoitece e o céu baixa cortina,
Teu colo abriga os ecos do caminho.
E a solidão, que antes me definia,
Desfaz-se em luz e perde-se sozinha.
Se o tempo nos pedir algum cuidado,
Oferto a ele a paciência da seiva.
E sigo em ti, de peito desarmado,
Porque o amor é a pátria que me enleva.
E quando a aurora erguer nova bandeira,
Seremos nós, no claro amanhecer:
O mapa, o porto, a trilha verdadeira,
O beijo eterno a nos reconhecer.
(Betto Gasparetto- vi-mmxvii)
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