Arquivo para 16 de novembro de 2025

O Medo Aprisiona

Posted in Sem categoria on 16 de novembro de 2025 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

Teu nome pousa em meu peito sem ruído,
E a noite aprende a nascer do teu olhar.
A lua inclina o corpo, comovida,
Para escutar teu riso desenhar.

Em ti descubro um mapa de calmarias,
Onde o desejo afina a própria voz.
O vento passa e dobra melodias,
E o mundo fica inteiro entre nós dois.

Meu passo aprende o rito dos teus passos,
E o chão floresce em pólen de ternura.
Teu gesto abre janelas e abraços,
Faz da memória uma casa mais segura.

O tempo, em teu cabelo, desacalma,
E torna a tarde um barco sem partida.
Se tocas devagar a minha alma,
O medo rende os pesos da medida.


No sulco delicado da presença,
A solidão desaprende o seu lugar.
Tudo que um dia foi sombra e sentença,
Vira clarão disposto a perdoar.

II

Teu corpo escreve a paz no meu cansaço,
Com tinta leve e sílaba de sol.
Eu recolho os segredos no teu braço,
E volto a ser menino em caracol.

Se a distância inventasse o impossível,
Teu eco me faria atravessar.
O amor, quando é maduro e indestrutível,
Aprende a ser silêncio sem calar.

Por entre as ruas íntimas do peito,
Caminho em ti como quem vai rezar.
Mas reza aqui é só rumor perfeito:
A respiração do verbo amar.

Teu beijo é madrugada sem fronteira,
Que veste o céu de um azul mais compassivo.
E a vida, que era áspera e inteira,
Aceita, enfim, ser mais que sobrevivo.

No cume delicado da promessa,
Desliza um fio de ouro pela tarde.
A esperança, paciente como teça,
Costura sonhos na medida exata.

III

Quando tu ris, a brisa se perturba,
E o violão desperta no jardim.
O coração, que outrora pouco acurva,
Se inclina inteiro e diz que é sempre assim.

Tuas mãos desenham portos nos meus ombros,
E os mares migram para a luz da pele.
Eu perco o medo antigo dos escombros,
E o tempo aprende a demorar-se e nele.

Teu passo é curso d’água em pedra lisa,
Que encontra brechas, canta, e não se apressa.
Teu olho é farol que tudo avisa,
E acende em mim o lume da promessa.

Se for preciso andar por noite e bruma,
Levarei tua voz por guia e chama.
Pois cada letra tua acende a espuma
De um mar que, em mim, só sabe que te ama.

A vida é breve, dizem, e insistente,
Mas teu abraço alonga muito o dia.
E aquilo que era sombra reincidente
Esquece a dor e aprende a melodia.

IV

Nosso futuro cabe no presente,
Como um jardim guardado dentro da semente.
E cada pétala, cândida e urgente,
Rebrota em nós, suave e permanente.

Se alguma ausência ousar tocar teu rosto,
Serei fronteira em guarda e mansidão.
E o mundo, que era alheio, sem desgosto,
Virará casa em teu coração.

Quando anoitece e a cidade silencia,
O peito acende um lume azul-dourado.
Teu nome volta e canta em sinfonia,
E o medo dorme, manso, adormecido.

Eu te prometo nada além do inteiro:
A febre doce e clara de existir.
Te prometo um caminho verdadeiro,
Onde o afeto é verbo por florir.

E quando a aurora abrir sua cortina,
Hás de encontrar meu ombro ainda ali.
Porque o amor que em nós se ilumina
Aprendeu, cedo, a nunca ter um fim.

(Betto Gasparetto- vi-mmxvii)