Monólogo da Saudade Serena

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

A saudade chegou devagarinho,
Sentou-se à mesa, pediu para ficar.
Trouxe um caderno, lápis e carinho,
E disse: vamos juntos inventariar.
Primeiro, os passos dados sem alarde,
Que foram pão no dia mais difícil.
Depois, os beijos tímidos da tarde,
Que transformaram bruma em clarividência.

II
Anotei teu perfume, brando e limpo,
E o modo como o riso te acalmava.
Anotei teu silêncio, manso e simples,
E a paz que, em mim, tua presença dava.
Guardei o tom exato do teu nome,
E o jeito como a porta te acolhia.
Guardei o corpo inteiro e seu pronome,
E a luz que, ao tocar, florescia.

III
A saudade sorriu, porque conhece
Os inventários de quem ama em paz.
Disse: segue, escreve o que te aquece,
E deixa o que é ferida para trás.
Registrei nossas tardes de varanda,
O chá, o pão, o sol no parapeito.
O som da rua ao longe que nos manda
Um recado de mundo imperfeito.

IV
Anotei as viagens que faltaram,
Não como falta, mas como horizonte.
Anotei velhas cartas que choraram,
E viraram água doce sobre a fonte.
Reuni pequenos gestos escondidos,
O cobertor passado sobre os ombros,
“O sim” discreto aos sonhos distraídos,
E o não gentil aos tantos escombros.

V
Eu quis guardar até o que não lembro,
Porque há lembranças feitas de ternura.
E a saudade assentiu, com rosto novembro,
Dizendo: tudo isso é tua estrutura.
Depois pedi um tempo ao coração,
Para escrever o que dói e ensina.
A saudade, paciente, deu a mão,
E disse: põe no papel e caminha.

VI
Anotei noites longas de vigília,
Janelas, lâmpadas, breves horizontes.
Registrei descompassos e cautelas,
Os nós antigos, prantos e cansaços.
Mas cada dor ganhou novas janelas,
E converteu-se em firmeza nos abraços.
Quando olhei para a lista tão comprida,
A saudade fechou o caderno e disse:
Vês como o amor bordou tua vida,
E como o tempo só te quis feliz?

VII
Eu sorri, e pedi mais um capítulo,
Para escrever o agora, aqui, presente.
Ela assentiu: o agora é o mais lícito,
Pois nele o coração floresce e sente.
Então escrevi teu nome uma centena
De vezes, em caligrafia lenta.
E cada letra era uma açucena,
E cada linha, uma manhã atenta.

VIII
Escrevi: hoje te espero com doçura,
E te recebo em paz e vigilância.
Escrevi: cuido em mim do que te cura,
E em ti confio a minha confiança.
A saudade, contente, pediu pausa,
Para beber da luz do fim da tarde.
Eu trouxe água, pão e nossa causa,
E a mesa recebeu nossa saudade.

IX
Disse: inventário feito não termina,
Pois cada dia aumenta a coleção.
Eu respondi: o amor é disciplina,
E armazena o trigo da estação.
Ela sorriu: então, prossegue e vive,
Com esse cuidado claro e generoso.
E eu escrevi: que nada nos derribe,
Que o cotidiano seja vitorioso.
Então fechei o livro com carinho,
E guardei no armário da memória.

X
Deixei marcado o próximo caminho,
Para que a vida leia a nossa história.
Se fores longe, eu sigo te guardando,
Se fores perto, eu sigo te acolhendo.
E se a noite vier nos visitando,
Acenderei o lume do entendimento.
E quando a aurora abrir sua janela,
A saudade sorrirá na cozinha.
Nossa alegria, simples, larga e bela,
Fará do pão palavra que caminha.
Eu sei que ainda faltam muitos itens,
Mas cada um surgirá quando chamarmos.

XI
Porque o amor, em sua lei de ritmos,
Anota e apaga, para que amemos.
E a saudade, serena, me garante:
Inventariar é jeito de cuidar.
Eu assinei, com tinta de amante:
Prefiro a fé que sabe demorar.
Se o tempo perguntar quem nós somos,
Direi: somos quem guarda e devolve.

XII
Se o mundo perguntar se continuamos,
Direi: sim, com o que cura e resolve.
Se Deus do tempo vier nos visitar,
Oferecemos mesa e escutação.
E a saudade há de então testemunhar:
Amor maduro é nossa profissão.
E quando a vida fechar o caderno,
Abriremos outro, mais aberto e terno.

(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)

Deixe um comentário