EU TENHO UMA NOTÍCIA PARA VOCÊ… (parte 1 de 2)

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

MOMENTO I — O ANÚNCIO

VOCÊ:
Por que você parou assim?
Você entrou, olhou ao redor… e ficou em silêncio.

EU:
Porque algumas frases não entram numa sala.
Elas pesam antes mesmo de serem ditas.

VOCÊ:
Então não diga.
Se é pesada demais, deixe onde estava.

EU:
Não posso.
Eu trouxe comigo.
E agora ela sabe que você existe.

VOCÊ:
O quê sabe?

EU:
A notícia.


MOMENTO II — O TEMPO SUSPENSO

VOCÊ:
Não gosto quando você chama algo pelo nome antes de explicá-lo.
É assim que as tragédias começam.

EU:
Nem toda tragédia explode.
Algumas apenas esperam.
Como uma carta fechada em cima da mesa.

VOCÊ:
Você está me preparando?

EU:
Não.
Estou testando se você percebe o que já mudou.

VOCÊ:
Mudou o quê?

EU:
O jeito como o silêncio te olha agora.


MOMENTO III — O MEDO SEM ROSTO

VOCÊ:
Desde que você entrou, a casa parece menor.
As paredes escutam.

EU:
Elas sempre escutaram.
Você só nunca reparou.

VOCÊ:
Essa notícia…
Ela é sobre mim?

EU:
Tudo é sobre quem pergunta.
Mas nem tudo responde.

VOCÊ:
Então é ruim.

EU:
É inevitável.


MOMENTO IV — O JOGO DOS SINAIS

VOCÊ:
Diga ao menos se vem do passado.

EU:
O passado não avisa.
Ele retorna.

VOCÊ:
Do futuro, então?

EU:
O futuro sussurra.
E você já ouviu.

VOCÊ:
Então é o presente.

EU:
O presente é só o ponto onde tudo se encontra…
e ninguém sabe para onde correr.


MOMENTO V — A FRASE QUE NÃO VEM

VOCÊ:
Você prometeu uma notícia.

EU:
Eu prometi que a tinha.
Nunca prometi entregá-la.

VOCÊ:
Isso é crueldade.

EU:
Não.
Crueldade seria tirá-la de você
antes que estivesse pronto para desconfiar.

VOCÊ:
Desconfiar de quê?

EU:
De tudo que parece normal demais esta noite.


MOMENTO VI — O FECHAMENTO

VOCÊ:
Então você vai embora?

EU:
Vou.
Mas a notícia fica.

VOCÊ:
Onde?

EU:
No intervalo entre o que você sabe
e o que prefere não perguntar.

VOCÊ:
E se eu nunca descobrir?

EU:
Então ela cumprirá perfeitamente seu papel.

(Silêncio.)

VOCÊ:
Você ainda está aí?

EU:
Sempre estive.

(Betto Gasparetto – ix-mmxxiii)

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