Monólogo sobre o Tempo Que Morou Dentro de Nós
(Betto Gasparetto)

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O tempo veio, entrou sem cerimônia,
Sentou-se à mesa e pediu café.
Disse: “vim ver se a vida ainda é idônea,
Se o amor ainda fala o que bem quer.”
Nós rimos, cúmplices, por gentileza,
E o tempo achou curioso o nosso riso.
Ele, tão velho, viu que a singeleza
Ainda era abrigo, norte e aviso.
Tomou do pão, partiu com paciência,
E disse: “a eternidade é convivência.”
Teus olhos, sábios, olharam-no em calma,
E o tempo viu-se ali, rejuvenescido.
Tua presença ensinou-lhe a alma,
Que amar é verbo, nunca sucedido.
E eu, sentado ao lado do mistério,
Percebi que o amor vence o calendário.
O tempo, humilde, confessou o sério:
“Vocês viveram fora do horário.”
E nós sorrimos, leves de razão,
Com a eternidade posta à mão.
O tempo quis saber como é possível
Manter o lume em brasa sem se exaurir.
Disse-lhe: “é simples, é invisível,
É só cuidar, sem medo de existir.”
E ele, curioso, fez silêncio longo,
Para entender o ofício do afeto.
O amor, discreto, acendeu o tongo
De uma vela no meio do concreto.
E o tempo, vendo o brilho dessa chama,
Percebeu que o amor também o ama.
“Como resistem às horas impiedosas?”
Perguntou o tempo, um tanto comovido.
“Vivendo lento, com fé nas coisas rosas,
E rindo do que um dia foi perdido.”
“E o corpo?” – ele quis saber – “E o cansaço?”
“Fazem parte da lição e do percurso.”
“E as dores?” – insistiu – “E o descompasso?”
“São sementes de paz, quando em discurso.”
E o tempo, ouvindo, suspirou profundo:
“Vocês amam mais velho que o mundo.”
Depois se levantou, nos abençoou,
E o chão brilhou sob a luz de sua pena.
“Eu volto sempre que o relógio parou,
Pois onde há fé, o tempo se serena.”
E foi embora, leve, sem presságio,
Deixando um cheiro antigo de jasmim.
Nós nos olhamos, rimos de coragem,
E o mundo inteiro coube ali, enfim.
O amor dormiu, cansado e agradecido,
E o tempo, ao longe, acenou rendido.
Agora sei: o tempo mora em nós,
Feito hóspede discreto e atencioso.
Ele nos serve o chá, empresta voz,
E observa o amor, curioso e idoso.
Aprendeu, conosco, a ter doçura,
A falar baixo e a ouvir devagar.
E quando a pressa chega em desventura,
Ele suspira e pede pra esperar.
Porque entendeu, e escreve em sua foz:
“O tempo só existe entre os que são dois.”
Quando, afinal, o tempo for embora,
Levará fotos, cartas e canções.
Mas deixará no chão da nossa aurora
Um rastro claro de recordações.
E nós, contentes, abriremos a janela,
Para que o vento assine o seu adeus.
O sol virá brilhar na tarde bela,
E o céu guardará os nomes teus.
E o tempo, em paz, há de reconhecer:
Amar é o jeito humano de viver.
O tempo, então, nos deixará sozinhos,
Mas de saudade mansa, não cruel.
O coração, maduro em seus caminhos,
Baterá firme, claro, fraternal.
E cada hora, doce, será nova,
Mesmo que o corpo aprenda o fim da estrada.
Porque o amor, que em nós se renova,
Faz da velhice a aurora mais dourada.
E o tempo, vendo o brilho em nossos rostos,
Dirá: “a vida é feita em contrapostos.”
Assim termina a crônica serena,
De quem viveu com alma em construção.
E o tempo, agora amigo, se acalenta,
Em cada ruga mora uma canção.
O mundo gira, as flores se inclinam,
E o amor escreve a história outra vez.
O tempo assina: “Aqui, tudo ilumina,
E a eternidade mora em sua vez.”
Que seja sempre assim — o mesmo nós,
E o tempo em paz, morando entre nós.
(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)
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