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Uma Lágrima Pousou em Meu Ombro

Posted in Sem categoria on 4 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

PARTE I — O CHAMADO DA NOITE

No átrio da noite, o silêncio me chamou,
E a lua, juíza pálida, velava.
Teu nome ardia em cartas que não envio,
Como selo antigo que o tempo lacrava.
O vento trouxe presságios no véu,
Um passo oculto na escada do destino.
Meu peito, palco de guerra e anseio,
Guardava espadas sob o linho fino.
Jurei não crer no acaso traiçoeiro,
Mas tremi ao ver teu vulto passar.
Entre sombras, um pacto primeiro,
Promessa muda de não recuar.
O coração, réu confesso, bateu,
Chamando o risco de amor verdadeiro.
Se o mundo cai, que caia por nós,
Disse a esperança em tom derradeiro.
Assim começou o drama secreto,
Com a noite selando o nosso decreto.


PARTE II — O SUSSURRO DO DESEJO

Teu olhar abriu portais na razão,
Onde o desejo reinava sem lei.
Cada palavra era lâmina e mel,
Doce ferida que eu mesmo cravei.
Nos corredores do tempo tardio,
Teu riso ecoou como sino profano.
Meu sangue aprendeu teu idioma,
Verso proibido, rito humano.
As mãos, conspiradoras do querer,
Rasgaram mapas do certo e errado.
Beijei o perigo sem me defender,
Como quem pede ao céu ser julgado.
O chão cedeu sob nossos passos,
E o mundo girou, cúmplice e lento.
Entre promessas e falsos compassos,
Nasceu o vício do encantamento.


PARTE III — O VÉU DO MISTÉRIO

Havia sombras guardando teu nome,
Cortinas fechadas no palco do ser.
Cada silêncio trazia um presságio,
Um nó antigo difícil de desfazer.
Quem eras tu no espelho da aurora?
Rainha exilada ou sombra leal?
Teu rastro cheirava a segredos,
Como incenso em templo ancestral.
Fingi coragem diante do enigma,
Mas temi o preço de tanta verdade.
Pois quem ama o abismo queima,
E paga com sangue sua liberdade.
Entre sinais que o destino escondia,
O medo vestiu-se de devoção.
A dúvida, víbora fria, mordia
O centro exato do meu coração.


PARTE IV — A LÁGRIMA

Foi então que o mundo parou de girar,
E o tempo curvou-se em reverência.
Teu pranto caiu, suave e tardio,
Como sentença e clemência.
Uma lágrima pousou em meu ombro,
Grão de infinito, cristal ferido.
Ali compreendi todo o drama,
O amor vencido, jamais esquecido.
Teu choro falou o que os lábios negaram,
Confissão nua, sem defesa ou véu.
Os deuses, se havia, silenciaram,
E o céu baixou os olhos ao réu.
Meu peito tornou-se abrigo e cruz,
Onde a dor descansou, cansada.
Naquele instante de sombra e luz,
Nossa história foi enfim selada.


PARTE V — O ECO DO DESTINO

Partiste sem romper o encanto,
Deixando perfumes no ar do salão.
O amor ficou, como espectro santo,
Guardando ruínas no coração.
Hoje caminho entre dias comuns,
Mas levo em mim tua chama antiga.
O mundo sorri com rostos alheios,
Enquanto a memória insiste e castiga.
Se te encontro nos sonhos tardios,
É para aprender a perder outra vez.
Pois amar é pacto com vazios,
É jurar ao risco eterna altivez.
Não choro mais a lágrima caída,
Pois nela vivi minha redenção.
Foi dor, foi chama, foi toda a vida,
Uma lágrima pousou em meu ombro — e então.

(Betto Gasparetto – vi-mcmxciv)

Monólogo de Quando Teu Corpo Era Verso de Uma Era

Posted in Sem categoria on 4 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

O céu amanheceu de azul mais calmo,
E o vento veio em tom de gratidão.
O dia acenou, trazendo o salmo
De um amor que é pura devoção.
Tu me olhaste e o mundo se compôs,
As árvores silenciaram suas preces.
E o tempo, atento, entendeu que nós
Somos o instante em que a paz acontece.
O sol pousou na borda do destino,
E tudo se tornou mais cristalino.

Teu corpo era o verso de uma era,
Que o universo quis experimentar.
E minha voz, canção primeira,
Aprendeu o dom de te chamar.
A eternidade, lá do alto, olhava,
Curiosa com o brilho do momento.
Ela, tão vasta, quase se curvava
Ao ver o amor tomando o firmamento.
E disse, em tom sutil de madrugada:
“É raro ver beleza assim formada.”

Nosso silêncio ensinou orações
Que os anjos repetiram por inteiro.
Não era fé, nem eram confissões,
Era apenas amor verdadeiro.
O céu, ao ver, se fez mais demorado,
E as estrelas, em véu, se comoveram.
O vento trouxe o eco consagrado,
E as folhas, num sussurro, responderam.
O universo sorriu, pleno e contente,
E o tempo se deteve, obediente.

Falamos pouco, porque o amor é rito,
Que o verbo arruína se for demais.
Bastava o olhar, o gesto, o infinito,
E o resto o coração traduz em paz.
Nossos corpos, de luz e paciência,
Desenharam constelações antigas.
E o mundo, em sua sábia consciência,
Guardou o instante em páginas amigas.
E a eternidade, olhando, compreendeu:
O amor é o nome que criou Deus.

Naquela hora, o tempo se despediu,
Com lágrimas discretas nos ponteiros.
O espaço se inclinou, sorriu e viu
Que o amor não tem início verdadeiro.
Não há começo, nem fim, nem clausura,
Só o pulsar constante e luminoso.
E o universo, tocado pela altura,
Nos fez canção de ciclo majestoso.
E o vento disse ao mar, ao sol, à lua:
“O amor venceu o tempo — e a rua.”

Quando a eternidade aprendeu o nome,
Ela o guardou num cofre de alvoradas.
E prometeu, por graça e por costume,
Levá-lo em versos por todas as estradas.
E o amor, humilde, aceitou sorrindo,
Sem precisar de trono ou monumento.
Pois sabia, em seu modo mais lindo,
Que o viver é seu próprio testamento.
E a eternidade, dócil, em reverência,
Jurou lembrar o amor com paciência.

E eu, que nada quis além da vida,
Aprendi o verbo de te abrigar.
E o céu, ouvindo a alma comovida,
Assinou conosco o verbo amar.
E quando o mundo, cansado e incerto,
Apagar o que resta do que é vão,
A eternidade, firme, há de estar perto,
Tocando o amor com sua própria mão.
E quando o fim chegar, como promessa,
Será começo em nova fortaleza.

E se o tempo ousar nos separar,
A eternidade há de intervir.
Ela, que sabe o dom de aproximar,
Refará caminhos, mar e porvir.
Pois o amor é chama que não some,
É água que não seca nem declina.
E quando o vento soprar teu nome,
O céu inteiro em mim se ilumina.
E a eternidade, rindo e comovida,
Dirá: “Este é o nome que dá vida.”

E então, no espaço imenso do universo,
Seremos nota breve, som, refrão.
O amor, em seu registro mais diverso,
Soará em nós, sutil oração.
Não mais haverá noite ou distância,
Nem perda, nem medo, nem saudade.
A eternidade, em pura consonância,
Guardará o amor como verdade.
E o tempo, grato, enfim compreenderá:
Que o amor é o nome que o eterniza já.

E quando a luz apagar no último abrigo,
E o corpo dormir no chão do destino,
A eternidade, fiel, virá contigo,
E o amor seguirá seu desatino.
Porque, afinal, o tempo é só passagem,
E o amor é o que dele se resume.
E o universo, em seu eterno estágio,
Há de gravar em pólen e perfume:
Que o amor venceu, no espaço e no renome,
Quando a eternidade aprendeu teu nome.

(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)