Monólogo de Quando Teu Corpo Era Verso de Uma Era
(Betto Gasparetto)

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O céu amanheceu de azul mais calmo,
E o vento veio em tom de gratidão.
O dia acenou, trazendo o salmo
De um amor que é pura devoção.
Tu me olhaste e o mundo se compôs,
As árvores silenciaram suas preces.
E o tempo, atento, entendeu que nós
Somos o instante em que a paz acontece.
O sol pousou na borda do destino,
E tudo se tornou mais cristalino.
Teu corpo era o verso de uma era,
Que o universo quis experimentar.
E minha voz, canção primeira,
Aprendeu o dom de te chamar.
A eternidade, lá do alto, olhava,
Curiosa com o brilho do momento.
Ela, tão vasta, quase se curvava
Ao ver o amor tomando o firmamento.
E disse, em tom sutil de madrugada:
“É raro ver beleza assim formada.”
Nosso silêncio ensinou orações
Que os anjos repetiram por inteiro.
Não era fé, nem eram confissões,
Era apenas amor verdadeiro.
O céu, ao ver, se fez mais demorado,
E as estrelas, em véu, se comoveram.
O vento trouxe o eco consagrado,
E as folhas, num sussurro, responderam.
O universo sorriu, pleno e contente,
E o tempo se deteve, obediente.
Falamos pouco, porque o amor é rito,
Que o verbo arruína se for demais.
Bastava o olhar, o gesto, o infinito,
E o resto o coração traduz em paz.
Nossos corpos, de luz e paciência,
Desenharam constelações antigas.
E o mundo, em sua sábia consciência,
Guardou o instante em páginas amigas.
E a eternidade, olhando, compreendeu:
O amor é o nome que criou Deus.
Naquela hora, o tempo se despediu,
Com lágrimas discretas nos ponteiros.
O espaço se inclinou, sorriu e viu
Que o amor não tem início verdadeiro.
Não há começo, nem fim, nem clausura,
Só o pulsar constante e luminoso.
E o universo, tocado pela altura,
Nos fez canção de ciclo majestoso.
E o vento disse ao mar, ao sol, à lua:
“O amor venceu o tempo — e a rua.”
Quando a eternidade aprendeu o nome,
Ela o guardou num cofre de alvoradas.
E prometeu, por graça e por costume,
Levá-lo em versos por todas as estradas.
E o amor, humilde, aceitou sorrindo,
Sem precisar de trono ou monumento.
Pois sabia, em seu modo mais lindo,
Que o viver é seu próprio testamento.
E a eternidade, dócil, em reverência,
Jurou lembrar o amor com paciência.
E eu, que nada quis além da vida,
Aprendi o verbo de te abrigar.
E o céu, ouvindo a alma comovida,
Assinou conosco o verbo amar.
E quando o mundo, cansado e incerto,
Apagar o que resta do que é vão,
A eternidade, firme, há de estar perto,
Tocando o amor com sua própria mão.
E quando o fim chegar, como promessa,
Será começo em nova fortaleza.
E se o tempo ousar nos separar,
A eternidade há de intervir.
Ela, que sabe o dom de aproximar,
Refará caminhos, mar e porvir.
Pois o amor é chama que não some,
É água que não seca nem declina.
E quando o vento soprar teu nome,
O céu inteiro em mim se ilumina.
E a eternidade, rindo e comovida,
Dirá: “Este é o nome que dá vida.”
E então, no espaço imenso do universo,
Seremos nota breve, som, refrão.
O amor, em seu registro mais diverso,
Soará em nós, sutil oração.
Não mais haverá noite ou distância,
Nem perda, nem medo, nem saudade.
A eternidade, em pura consonância,
Guardará o amor como verdade.
E o tempo, grato, enfim compreenderá:
Que o amor é o nome que o eterniza já.
E quando a luz apagar no último abrigo,
E o corpo dormir no chão do destino,
A eternidade, fiel, virá contigo,
E o amor seguirá seu desatino.
Porque, afinal, o tempo é só passagem,
E o amor é o que dele se resume.
E o universo, em seu eterno estágio,
Há de gravar em pólen e perfume:
Que o amor venceu, no espaço e no renome,
Quando a eternidade aprendeu teu nome.
(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)
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