Uma Lágrima Pousou em Meu Ombro

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

PARTE I — O CHAMADO DA NOITE

No átrio da noite, o silêncio me chamou,
E a lua, juíza pálida, velava.
Teu nome ardia em cartas que não envio,
Como selo antigo que o tempo lacrava.
O vento trouxe presságios no véu,
Um passo oculto na escada do destino.
Meu peito, palco de guerra e anseio,
Guardava espadas sob o linho fino.
Jurei não crer no acaso traiçoeiro,
Mas tremi ao ver teu vulto passar.
Entre sombras, um pacto primeiro,
Promessa muda de não recuar.
O coração, réu confesso, bateu,
Chamando o risco de amor verdadeiro.
Se o mundo cai, que caia por nós,
Disse a esperança em tom derradeiro.
Assim começou o drama secreto,
Com a noite selando o nosso decreto.


PARTE II — O SUSSURRO DO DESEJO

Teu olhar abriu portais na razão,
Onde o desejo reinava sem lei.
Cada palavra era lâmina e mel,
Doce ferida que eu mesmo cravei.
Nos corredores do tempo tardio,
Teu riso ecoou como sino profano.
Meu sangue aprendeu teu idioma,
Verso proibido, rito humano.
As mãos, conspiradoras do querer,
Rasgaram mapas do certo e errado.
Beijei o perigo sem me defender,
Como quem pede ao céu ser julgado.
O chão cedeu sob nossos passos,
E o mundo girou, cúmplice e lento.
Entre promessas e falsos compassos,
Nasceu o vício do encantamento.


PARTE III — O VÉU DO MISTÉRIO

Havia sombras guardando teu nome,
Cortinas fechadas no palco do ser.
Cada silêncio trazia um presságio,
Um nó antigo difícil de desfazer.
Quem eras tu no espelho da aurora?
Rainha exilada ou sombra leal?
Teu rastro cheirava a segredos,
Como incenso em templo ancestral.
Fingi coragem diante do enigma,
Mas temi o preço de tanta verdade.
Pois quem ama o abismo queima,
E paga com sangue sua liberdade.
Entre sinais que o destino escondia,
O medo vestiu-se de devoção.
A dúvida, víbora fria, mordia
O centro exato do meu coração.


PARTE IV — A LÁGRIMA

Foi então que o mundo parou de girar,
E o tempo curvou-se em reverência.
Teu pranto caiu, suave e tardio,
Como sentença e clemência.
Uma lágrima pousou em meu ombro,
Grão de infinito, cristal ferido.
Ali compreendi todo o drama,
O amor vencido, jamais esquecido.
Teu choro falou o que os lábios negaram,
Confissão nua, sem defesa ou véu.
Os deuses, se havia, silenciaram,
E o céu baixou os olhos ao réu.
Meu peito tornou-se abrigo e cruz,
Onde a dor descansou, cansada.
Naquele instante de sombra e luz,
Nossa história foi enfim selada.


PARTE V — O ECO DO DESTINO

Partiste sem romper o encanto,
Deixando perfumes no ar do salão.
O amor ficou, como espectro santo,
Guardando ruínas no coração.
Hoje caminho entre dias comuns,
Mas levo em mim tua chama antiga.
O mundo sorri com rostos alheios,
Enquanto a memória insiste e castiga.
Se te encontro nos sonhos tardios,
É para aprender a perder outra vez.
Pois amar é pacto com vazios,
É jurar ao risco eterna altivez.
Não choro mais a lágrima caída,
Pois nela vivi minha redenção.
Foi dor, foi chama, foi toda a vida,
Uma lágrima pousou em meu ombro — e então.

(Betto Gasparetto – vi-mcmxciv)

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