Monólogo sobre o Tratado da Memória e do Perdão
(Betto Gasparetto)

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A noite inclina a face no batente,
E o corredor conversa com a sombra.
Eu passo os olhos pela tua frente,
E o tempo, manso, desampara a alfombra.
Memória é lâmpada que não se apaga,
Mas muda o tom conforme a compaixão.
Eu te proponho a mesa que não nega:
Pão da verdade e taça do perdão.
Sem ritos, sem discursos, sem vitrina:
Só o cuidado em sua pauta fina.
Primeiro, nomear aquilo que dói,
Sem transformar em pedra ou em sentença.
Depois, tocar devagarinho, e só,
Até que a dor aceite a nossa presença.
O resto é ética de mão aberta,
Que aprende a ouvir e a não vencer.
Vencer é cândida palavra incerta;
Melhor que ela é “junto” e “pertencer”.
No escuro doce, a casa vai dizendo
Que o humano é barro que está aprendendo.
No aparador, retratos se ajeitam,
E os olhos velhos brilham no verniz.
A vida é soma lenta dos que aceitam
Ser menos certos para ser feliz.
Eu te confesso as minhas imperfeições,
E a noite acolhe tudo sem ruído.
Descanso em ti as velhas contradições,
E devolves-me um afeto estendido.
O perdão nasce, simples, sem fanfarra,
Como uma luz que o coração desgarra.
A memória pede ordem e brandura,
Quer que escolhamos o que fica vivo.
Nem tudo é ouro; há restos, há ferrugem,
Mas há também cuidado decisivo.
Eu salvo as tardes, salvo teus abraços,
Salvo os silêncios bons, o chá de sempre.
E a dor, que foi muralha e embaraço,
Vira degrau de um elo que não treme.
No quadro-negro azul do pensamento,
Escrevo: “Amor é justo movimento.”
Se um erro antigo pede a minha face,
Eu dou a face, e junto, o entendimento.
Não para ser herói, mas para que passe
A velha febre do ressentimento.
E quando tua voz tremer pedindo alívio,
Eu serei cais ao fim do teu cansaço.
Pois perdoar é dom sem proselitismo:
É prática mansa, humana e sem aço.
A noite aplaude, as tábuas fazem coro,
E a culpa cede, abrindo novo foro.
O corredor conhece teus segredos,
Os móveis sabem por que estás calada.
Eu não insisto em atalhos ou degredos,
Eu fico aqui: presença demorada.
No abajur, âmbar, a sombra dança,
E cada passo é aula de escutar.
O perdão cresce em ti como esperança,
E em mim se torna hábito de amar.
Memória e noite escrevem, lado a lado,
A ética simples do cuidado dado.
Eu te recordo em horas de ternura,
Quando a cidade apaga sua pressa.
A madrugada afina a partitura,
E a pele sente a paz que não tropeça.
O som da rua é brando e não invade,
O teto guarda estrelas por instinto.
E o coração, cansado de alarde,
Agradece o lume do labirinto.
A noite, então, transforma o que era agrura
Em chão que aceita a nossa criatura.
Se o mundo exige provas e balanços,
Aqui não cabe o cálculo severo.
Aqui cabem respiros e remansos,
E o compromisso ético e sincero.
Perdão não apaga, não encobre as marcas,
Mas torna cada marca inteligível.
E a memória, que antes tinha farpas,
Vira madeira lisa e disponível.
Eu te proponho o pacto mais discreto:
Fazer do humano um porto predileto.
No fim, a noite inclina sua fronte,
E indica o rumo claro do horizonte.
O quarto guarda a fábula da ponte,
Que vai de eu e tu para o horizonte.
Teu rosto enfim repousa em mim, confiante,
E o ar aprende o tom do repousar.
Se a lágrima vier, que seja amante,
Regando a flor que sabe perdoar.
E o livro azul da casa escreve, então:
“Memória e amor fazem revolução.”

Quando o primeiro raio toca o vidro,
O dia lê o que a noite escreveu.
Eu te prometo: sigo ao teu abrigo,
E o mundo em nós aprende o que sou eu.
Se o erro voltar, que volte humano,
Para que o bem o ensine a caminhar.
O nosso trato é claro, cotidiano:
Cuidar, cuidar, cuidar e respeitar.
Fecho a janela e beijo a tua mão:
Começa agora a nossa absolvição.

(Betto Gasparetto- xi-mmxiii)
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