Monólogo do Amor Noturno

(Betto Gasparetto)

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A noite acende o quarto em azul contido,
E o vidro aprende o mapa do teu traço.
Meu nome volta em brisa, comovido,
E a casa abre o rumor do teu abraço.
No abajur, lenta, a luz respira calma,
Enquanto a rua esquece a própria pressa.
Teu rosto é códice que a memória salva,
E o coração traduz sem que confessa.
No livro escuro, escrevo mansamente
O rito humano do cuidado ardente.

A noite é concha, escuta o não-dito,
E o corpo fala éticas de amparo.
O gesto simples torna-se infinito,
Quando a ternura se assume raro.
Eu te prometo o pão do estar presente,
O copo d’água, a manta, a paciência.
E o verbo amar, discreto e consequente,
Faz-se conduta, escolha, consciência.
Nada de altar: só mesa e mão estendidas,
Para ligar nossa dor às nossas vidas.

A janela vê sombras e confidências,
Relógios mudos, passos no ladrilho.
O coração elabora suas ciências,
E remenda o que o dia fez em trilho.
Não somos santos: somos persistência,
Que aprende a ouvir antes de responder.
No breu, o afeto encontra a justa essência:
Cuidar é verbo, não é parecer.
Falo baixinho ao eco dos teus medos,
E aceito em mim teus vícios, teus segredos.

A noite escreve códigos nos móveis,
E o lençol dobra o susto dos cansaços.
Eu te recobro em gestos simples, nobres,
Que devolvem ao mundo novos passos.
Se a culpa vier tarde e te apertar,
Eu serei chão, farol, clareza exata.
E se o passado insistir em voltar,
Minha escuta o desfaz, minha alma o trata.
O amor, noturno, evita os grandes gritos:
Prefere o lume claro dos escritos.

No teto, o breu derrama constelações,
Desenho nelas rotas de retorno.
Teu riso custa às vezes mil perdões,
Mas paga a luz de cada novo outono.
É noite, sim, porém a noite ensina
Que o humano é ponte sobre o precipício.
Que o toque certo cura e reencaminha,
E o erro vira parte do exercício.
Eu guardo em ti o que o dia não guardou,
E a dor se rende ao colo que ficou.

A casa toda aprende a ser mais mansa,
O chão suspira em tábuas de madeira.
A vida, aqui, é lenta e tem esperança,
Bebe do poço azul de tua beira.
Teu rosto inclina o eixo do universo,
E o quarto vira oásis do cansaço.
No silêncio, preparo o meu converso,
Sem acusar, sem ângulo de aço.
O amor noturno é pacto de verdade,
Que salva o agora em sua integridade.

Se a solidão bater pedindo entrada,
Eu ofereço a ela uma cadeira.
Explico, humilde, a nossa caminhada,
E peço que ela sente à cabeceira.
Pois aprender com sombras faz sereno,
E restitui a luz quando amanhece.
Não nego a dor, mas torno o seu veneno
Um antídoto que a vida agradece.
A noite, etérea, assina com canções
O manual dos nossos corações.

E quando o medo morder tua memória,
Eu serei ponte sobre a água fria.
Direi que a culpa é só metade da história,
E que o perdão é a outra metade, dia.
Teu rosto, então, repousa em minha fala,
E a pele aprende o verbo do descanso.
A noite, enfim, se dobra em luz que embala,
E o mundo dorme em pulso lento e manso.
No teu silêncio, escrevo o meu respeito,
E o amor vigia inteiro sobre o peito.

A madrugada abre alas ao horizonte,
E beija a borda pálida da janela.
No parapeito, o sonho é como fonte,
Que verte humana água limpa e bela.
Eu te prometo a ética do abraço,
Que não pergunta antes de acolher.
E quando o dia erguer de novo o laço,
Seremos nós o modo de viver.
Eis meu evangelho simples e terreno:
Noite e memória: amar — nosso terreno.

E se o relógio chamar para a rua,
Eu vou contigo até onde pudermos.
Que a noite guarde a lição clara e nua:
Cuidar é o nome dos que nos quisermos.
Nos teus cabelos pousa o meu jurar,
Nos meus silêncios vive o teu amparo.
O amor que aprende à noite a escutar
Torna o futuro lúcido e mais raro.
E ao nascer do sol, saberemos ambos:
O humano é luz que acende nos abraços.

(Betto Gasparetto- vi-mmxiii)

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