Monólogo ao Livro que Dorme na Mesa Noturna

(Betto Gasparetto)

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O quarto respira o lume da lembrança,
E o livro dorme aberto sobre a mesa.
Há uma rosa seca em paz e esperança,
E o ar conserva a mesma sutileza.
Tua letra vive em cada margem,
E o papel guarda o cheiro da tua ausência.
A página suspira em linguagem,
Que mistura silêncio e paciência.
Não leio mais o texto: o texto é vida,
E nele encontro a minha despedida.

A noite, cúmplice, vela o manuscrito,
E o vento folheia sem ruído.
Cada palavra brilha, e no infinito
Reescreve o amor não esquecido.
A mesa guarda o peso do caderno,
E o tempo, ali, parece se deter.
O verbo amar, discreto e sem moderno,
Permanece verbo de entender.
Leio o teu nome e ouço o coração:
É som de fé, ternura e condição.

O livro não ensina, apenas mostra
O que o humano ousa preservar.
As páginas são tábuas, são respostas,
São gestos que aprenderam a escutar.
O amor que ali dorme é paciente,
Não quer glória, tampouco redenção.
É pão partido em mesa consequente,
É disciplina e é revelação.
E a noite, vendo a chama que persiste,
Assina o prólogo de tudo o que existe.

O texto fala sobre convivência,
Sobre o milagre simples do perdão.
Sobre o silêncio feito de presença,
E o riso como forma de oração.
Cada linha é costura, é tentativa
De entender o amor que não se mede.
E o coração, em paz e em narrativa,
Descansa em cada vírgula que pede.
O livro ensina, sem jamais doutrinar:
Amar é verbo, é verbo de cuidar.

Há manchas de café, há mãos antigas,
Há notas de rodapé escritas às pressas.
Há frases cortadas pelas fadigas,
E margens que registram nossas promessas.
Tudo é humano, simples, imperfeito,
E por isso mesmo essencial.
O livro guarda o que é mais direito:
A leveza do que é natural.
E o som do vento, entre as cortinas,
Lê cada página com mãos divinas.

A madrugada chega, atenta e pura,
E o abajur derrama luz discreta.
Na penumbra, a sombra é criatura
Que observa o amor, fiel esteta.
Folheio mais um pouco, e reconheço
Teu rosto desenhado em devaneio.
E o tempo, ao ver, desacelera o preço
De cada erro, de cada meio.
Fecho o livro e beijo o teu escrito:
A noite guarda o gesto mais bonito.

E quando o sol tocar o parapeito,
A mesa ainda será altar e história.
O livro dormirá, pleno e perfeito,
Como memória viva da memória.
E se o dia vier pedir lição,
Darei o livro em prova de ternura.
Porque o amor não cabe em pregação,
Mas em silêncio, tempo e compostura.
Deixo a mesa e a rosa, em seu lugar:
A fé é ler e continuar amar.

No fim, o quarto volta ao seu sossego,
O chão respira, o vidro se debruça.
E a brisa, como um toque em nosso ego,
Sussurra o que a lembrança traduz.
O livro dorme, e nele dorme a gente,
Como capítulos que se entrelaçam.
E o dia, entrando, lê docilmente
As notas que o destino nos repassa.
O amor não tem final, só intervalo:
Cada leitura é novo amparo.

Guardo o livro, e guardo em mim teu nome,
Como um prefácio que jamais termina.
E o som do vento em mim ressoa e some,
Deixando o peito em calma feminina.
Se o mundo pede um texto que explique,
Respondo: “não, o amor não se ensina.”
O livro dorme — e o coração edifica.
A noite é paz, e o verbo se ilumina.
E o leitor, quando por fim acordar,
Verá que amar é sempre recomeçar.

(Betto Gasparetto- xii-mmxiii)

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