Monólogo de uma Voz Que Mora no Espelho do Silêncio

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Há no espelho uma voz que se recorda,
Não é minha — é o eco do que fui.
Ela fala baixo, pede-me que acorde,
E o reflexo devolve o que destrói.
Não há culpa: há memória e aprendizado,
E o olhar, mais manso, busca o essencial.
A noite é mestra, o corpo, aliado,
E o coração respira sem igual.
A voz no espelho ensina o que é sereno:
Aceitar-se é o amor mais pleno.

Falo com ela como se falasse
A um velho amigo, sábio e discreto.
Ela responde em luz, sem que me abrace,
Mas cada frase é toque indireto.
“Perdoa-te” — diz — “pelos descuidos,
Pelos excessos de querer o certo.
O amor é feito também de ruídos,
E o erro faz do caminho um deserto.”
Escuto, atento, e sinto em meu semblante
Que o perdão é abraço constante.

O espelho, cúmplice, não censura,
Apenas mostra o tempo e sua lida.
Cada ruga é lembrança e é ternura,
Cada traço é trilha refletida.
A noite entende o rito dessa fala,
E o ar se faz discípulo da calma.
O amor humano é casa que não cala,
É templo simples dentro da alma.
E o reflexo, entre o claro e o escuro,
Ensina a ser gentil com o futuro.

As sombras passam lentas pela parede,
E o espelho vibra em tom de serenata.
Eu o encaro, e ele cede e cede,
Transforma o medo em ponte delicada.
Vejo ao fundo rostos de outros tempos,
Gente que amei e ainda me habita.
O amor se estende, vivo em sentimentos,
E o coração, sereno, não limita.
A voz retorna e sussurra outra vez:
“Amar é errar com lucidez.”

Deixo o reflexo falar o que deseja,
Sem resistência, sem me explicar.
O silêncio é quem rege e enseja
Que o humano aprenda o verbo cuidar.
As palavras se dissolvem como neve,
E o quarto se ilumina em humildade.
A voz do espelho, agora mais leve,
Canta: “amar é pura liberdade.”
Eu sorrio, e o vidro se embaça,
Como se o próprio tempo me abraçasse.

A madrugada abre portas de ouro,
E o ar respira o cheiro da confissão.
A voz diz: “segue, o amor é tesouro
Que só se dá quando é doação.”
Eu me inclino e agradeço em silêncio,
Com olhos brandos e peito limpo.
O reflexo sorri, denso e imenso,
E o medo deixa de ser labirinto.
A noite entende e guarda a lição:
O amor é perdão em expansão.

Apago a luz, o espelho ainda brilha,
Como um farol discreto no horizonte.
E a voz se apaga, mas vigia, filha
Do que em mim deseja ser mais ponte.
Deixo o quarto e fecho a porta lenta,
Como quem encerra uma oração.
No corredor, o chão já se apresenta,
E o coração caminha em redenção.
O silêncio fala, a alma se refaz,
E o humano aprende a paz que traz.

Penso em ti — e a lembrança é ternura,
Não mais tormento, mas compreensão.
O espelho guarda, fiel, minha figura,
E nela mora a nossa união.
Pois quem se ama aprende a amar o mundo,
E quem se perdoa ensina a fé.
O amor humano é simples e profundo,
Não tem dogma, tem o que é.
A noite termina com rosto em lume:
Sou eu — completo, inteiro, costume.

Quando o sol nascer, o espelho dorme,
Mas deixará gravada a sua voz.
Ela dirá: “sê justo, sê conforme,
Ama o outro, mas ama o que é vós.”
E o dia abrirá suas cortinas brancas,
Com cheiro de café e de renovo.
A alma, limpa, em paz e franca,
Começará de novo, sempre novo.
E o amor, no espelho e em mim, reflete:
A vida é quem perdoa e repete.

(Betto Gasparetto- iii-mmxiii)

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