Monólogo: O Poder da Palavra
(Betto Gasparetto)

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A palavra nasce antes do gesto.
E sobrevive depois do silêncio.
Ela não pede licença ao tempo,
Nem repousa na boca por acaso.
A palavra escolhe quem fere,
E também quem cura.
Uma sílaba pode erguer cidades,
Outra pode incendiá-las.
Reis tombaram por frases breves.
Povos caminharam por promessas.
A palavra não sangra,
Mas faz sangrar.
Não empunha lâmina,
Mas corta destinos.
Ela se infiltra nos ouvidos,
E constrói morada na alma.
Quando dita com verdade,
Sustenta o mundo.
Quando lançada com ódio,
Envenena gerações.
A palavra cria nomes,
E ao nomear, domina.
Tudo o que existe primeiro foi dito,
Mesmo o que jamais existiu.
O amor nasce pronunciado.
O medo também.
Há palavras que libertam grilhões,
Outras que os reforçam.

Um discurso pode ser abrigo,
Ou sentença.
Não há neutralidade no verbo.
Toda palavra escolhe lado.
Quem fala assume peso.
Quem escuta assume risco.
A palavra ensina a lembrar,
E obriga a esquecer.
Há palavras que salvam uma noite,
Outras que condenam uma vida.
Elas não envelhecem,
Apenas mudam de boca.
A palavra atravessa séculos,
Disfarçada de conselho,
De ordem,
De oração.
Quem domina a palavra,
Não precisa gritar,
Pois o eco trabalha por ele.
A palavra retorna sempre,
Mesmo quando negada.
Ela persegue consciências,
Assombra decisões,
Sustenta impérios invisíveis,
Derruba máscaras,
Revela intenções,
Cala covardias,
E desmascara mentiras.
A palavra jamais é inocente.

(Betto Gasparetto – viii-mcmxcvii)
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