Monólogo das Mãos que Controlam

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

As mãos não falam,
Mas ordenam.
Elas moldam destinos,
Sem pedir permissão.
Mãos escrevem contratos,
E apertam gargantas.
Assinam acordos,
E selam condenações.
Há mãos que acolhem,
Outras que retêm.
Mãos distribuem poder,
E recolhem liberdades.
O controle começa no toque,
Na posse do gesto.
Quem segura decide,
Quem solta perde.
Mãos constroem muros,
E fecham portas.
Também levantam pontes,
Quando convém.
O domínio reside nos dedos,
Na precisão do comando.
Mãos contam recursos,
Medem forças,
Calculam riscos.
O controle é manual,
Direto,
Frio.
Mãos treinadas não tremem.
Executam,
Administram,
Punem.
As mãos determinam limites,
Do corpo,
Do espaço,
E da vontade.

Mas as mãos não pensam sozinhas.
Recebem ordens invisíveis.
Repetem gestos aprendidos,
Chamam de hábito o que é doutrina.

Há mãos que herdam privilégios,
Antes mesmo do nome.
Outras aprendem cedo
O peso de pedir.

Mãos não discutem ética,
Executam protocolos.
O erro raramente é delas,
A culpa sempre encontra outro dono.

Quando lavadas, parecem limpas.
Quando cruzadas, fingem neutralidade.
Quando apontam, desviam o foco.

O mundo não gira —
É girado.
Por mãos que apertam alavancas,
Enquanto outras contam os danos.

O silêncio também é manual.
Constrói-se dedo a dedo,
Arquivo por arquivo,
Carimbo após carimbo.

E quando tudo cai,
Quando a estrutura falha,
As mãos se afastam.
Nunca estiveram ali.

Restam as marcas:
No pulso,
Na memória,
Na história.

Porque as mãos não falam.
Mas deixam tudo dito.

(Betto Gasparetto – vii-mcmxcvii)

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