Monólogo: Depois que nos Tornamos Ausência
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Depois que nos tornamos ausência,
o espaço aprendeu outro peso.
A casa respirou vazio,
e o tempo perdeu endereço.
Não foi partida ruidosa,
foi retirada lenta do existir.
Tornar-se ausência
é continuar sem presença.
O nome ainda ecoa,
mas não responde.
Os objetos lembram gestos,
que o corpo já não repete.
A ausência ocupa cadeiras,
atravessa corredores,
senta-se à mesa sem pedir.
Depois que nos tornamos ausência,
o cotidiano se desorienta.
Nada some por completo,
apenas muda de estado.
A voz vira memória,
o toque vira hipótese.
A ausência não grita,
mas insiste.
Ela corrige rotinas,
desloca afetos,
reaprende horários.
Tornar-se ausência
é permanecer invisível.
O mundo segue,
mas com falha de contorno.
Rimos por hábito,
choramos por reflexo.
A ausência observa,
sem julgar.
Ela sabe
o que não foi dito.
Depois que nos tornamos ausência,
o amor não termina,
apenas se esconde.
Há presenças mais ausentes
que certas ausências fiéis.
O esquecimento tenta,
mas não vence.
A ausência cria raízes,
onde o tempo pisa.
Ela não pede lembrança,
impõe-se como fato.
Ser ausência
é existir em atraso.
Chegar sempre depois,
mesmo estando antes.
A ausência ensina
que nada se perde inteiro.
Tudo permanece
em outra forma de dor.
Depois que nos tornamos ausência,
aprendemos a pesar menos,
e significar mais.
O mundo não nos vê,
mas nos sente.
A ausência não ocupa espaço,
ocupa consciência.
Ela não se move,
mas desloca tudo.
Tornar-se ausência
é a última metamorfose do afeto.
Onde não há corpo,
sobra sentido.
Onde não há voz,
sobra eco.
A ausência permanece,
quando tudo parte.
E nos define para sempre.

(Betto Gasparetto – ix-mcmxcvii)
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