Monólogo: Construímos o Início, Dilaceramos o Final
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Construímos o início com cuidado,
como quem aprende a tocar o chão.
Havia intenção,
havia promessa.
Cada gesto inaugurava futuro.
O começo respirava esperança.
Construímos o início palavra a palavra,
acreditando na duração.
O tempo parecia aliado,
paciente.
No início,
tudo fazia sentido.
A dúvida era pequena,
quase afeto.
Mas o meio cansou.
A repetição desgastou o brilho.
O que sustentava
passou a exigir.
Construímos o início,
mas negligenciamos o cuidado.
O hábito substituiu o zelo.
O diálogo encurtou.
O fim começou discreto,
sem anúncio.
Dilaceramos o final
em atos mínimos.
Não foi um golpe,
foi insistência errada.
Cada silêncio ampliou a fissura.
O que unia
passou a dividir.
Dilaceramos o final
tentando manter o início.
Confundimos persistir
com permanecer.
O começo não suporta
ser repetido sem ajuste.
O final nasceu do acúmulo,
não da decisão.
Construímos o início com sonho,
dilaceramos o final com descuido.
Quando percebemos,
já era tarde.
O início não voltou,
o final não esperou.
Houve tentativas,
tardias.
O que se rompeu
não aceitou remendo.
Dilacerar o final
dói mais
quando o início foi belo.
A memória preserva o começo,
e acusa o fim.
Construímos o início juntos,
mas terminamos sós.
O final não foi cruel,
foi coerente.
Apenas revelou
o que ignoramos.
Construir exige presença contínua.
Não basta começar bem.
O final cobra manutenção.
Dilaceramos o final
ao parar de escolher.
O início foi criação,
o final, consequência.
Restou aprendizado tardio,
difícil de aplicar.
Construímos o início,
dilaceramos o final,
e carregamos ambos.
Um como lembrança,
outro como limite.
O começo ensina,
o fim confirma.
Entre eles,
fomos humanos.

(Betto Gasparetto – v-mcmxcvii)
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