Monólogo: Lágrimas Inóspitas
(Betto Gasparetto)

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Lágrimas inóspitas
não pedem abrigo.
Caem onde não há consolo,
nem promessa de chão.
São lágrimas sem destino,
que não encontram ombro.
O rosto endurece,
mas a lágrima insiste.
Inóspita é a dor
que não recebe acolhida.
Essas lágrimas
não comovem plateias,
não convocam socorro.
Escorrem em silêncio,
como quem sabe
que ninguém virá.
Lágrimas inóspitas
nascem do excesso,
não da fraqueza.
São resultado
de suportar demais.
O mundo passa,
indiferente ao sal.
A lágrima cai,
mas não limpa.
Ela pesa,
como pedra líquida.
Não alivia,
aprofunda.
Lágrimas assim
não pedem perdão.
Elas denunciam limites.
O corpo cansa
de ser forte.
A alma cansa
de se explicar.
Inóspita
é a lágrima
que cai sozinha.
Não há mão,
não há palavra.
Apenas queda.
Essas lágrimas
não querem resposta.
Querem cessar.
Mas continuam,
porque não sabem parar.
Lágrimas inóspitas
marcam território interno.
Dizem:
aqui doeu.
Aqui passou do limite.
O rosto seca,
mas o dentro permanece molhado.
São lágrimas
que não se exibem.
Retiram-se discretas,
como quem já perdeu.
Inóspitas,
porque não encontram morada.
Caem no nada,
e se dissolvem.
Ainda assim,
deixam rastro.
O corpo aprende
a viver com elas.
Não as expulsa,
não as celebra.
Apenas suporta.
Lágrimas inóspitas
ensinam resistência.
Não curam,
mas revelam.
Onde ninguém ficou,
elas estiveram.
Onde faltou cuidado,
elas surgiram.
A lágrima inóspita
não pede amor.
Apenas prova
que ainda há sentimento.
Mesmo no deserto.
Mesmo sem retorno.
(Betto Gasparetto – xii-mcmxcvii)
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