Monólogo: Num Campo de Batalha Lutamos sem Armas
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Num campo de batalha lutamos sem armas,
onde o corpo avança antes da razão.
Não havia espadas,
nem escudos visíveis.
Havia medo circulando livre,
e decisões nuas.
Lutamos com palavras mal ditas,
com silêncios mal sustentados.
Cada passo era confronto,
cada recuo, ferida aberta.
Não armamos a mão,
armamos o peito.
O inimigo não vestia rosto,
morava entre nós.
No campo de batalha,
a coragem falhava cedo.
Não havia glória,
apenas sobrevivência.
Lutamos sem armar,
porque tudo já era arma.
O olhar feria,
o tom condenava.
A memória servia de munição,
e o passado puxava o gatilho.
Não houve vencedores,
apenas resistentes.
Cada palavra lançada
caía como estilhaço.
O chão absorvia promessas,
pisoteadas pela pressa.
Lutamos cansados,
antes mesmo de sangrar.
A batalha era íntima,
mas deixava ruínas públicas.
O silêncio explodia por dentro,
sem fazer barulho.
Não armamos defesa,
porque acreditávamos demais.
No campo de batalha,
amar era risco tático.
Avançar significava perder,
recuar também.
A luta não pedia heróis,
pedia fim.
Mas continuamos,
por hábito ou medo.
O campo se alargava,
quanto mais tentávamos sair.
Não armamos trégua,
apenas adiamos a queda.
O corpo seguia inteiro,
a alma não.
Lutamos sem armar,
e por isso ferimos fundo.
A batalha terminou sem aviso,
como tudo que dói.
Restaram marcas invisíveis,
difíceis de explicar.
O campo esvaziou-se,
mas não nos deixou.
Ainda caminhamos nele,
mesmo longe.
Porque certas guerras
não precisam de armas.
Precisam de vínculo,
de expectativa,
de amor mal cuidado.
Num campo de batalha,
lutamos sem armar,
e pagamos o preço inteiro.
Não houve troféu,
nem lição clara.
Apenas a certeza amarga
de que lutar assim
consome mais
do que qualquer derrota.
Sobrevivemos,
mas não vencemos.

(Betto Gasparetto – iii-mcmxcvii)
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