Monólogo: Foi no Óbvio que Permanecemos no Vazio
(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning
Foi no óbvio que permanecemos no vazio,
quando tudo pedia atenção simples.
Ignoramos o que estava diante,
buscando profundidades inventadas.
O óbvio não seduz,
não promete mistério.
Por isso o evitamos.
Permanecemos no vazio,
porque parecia mais complexo.
Havia respostas claras,
mas queríamos enigmas.
O óbvio falava baixo,
e não gritava urgência.
Escolhemos o ruído.
No vazio,
acreditamos estar pensando.
Na verdade, adiávamos.
O óbvio exigia gesto,
o vazio permitia espera.
Permanecemos ali,
suspensos entre escolhas.
O simples assustava,
porque não tinha desculpa.
O vazio acolhia,
pois nada cobrava.
Foi no óbvio que falhamos,
ao não tocá-lo.
Passamos ao redor,
como se queimasse.
O óbvio pedia cuidado,
nós oferecemos teoria.
Permanecemos no vazio,
chamando-o de prudência.
Mas era medo.
Medo de resolver,
medo de perder o conflito.
O vazio parecia neutro,
mas corroía.
O óbvio sustentaria,
se aceito.
Preferimos o intervalo,
onde nada se decide.
O tempo passou conosco parados.
O vazio se ampliou,
enquanto o óbvio envelhecia.
Houve sinais suficientes,
repetidos.
Mas o óbvio cansa
quem não quer mudar.
Permanecemos no vazio,
por conveniência emocional.
Era mais fácil explicar ausência
do que assumir presença.
O óbvio pedia responsabilidade,
o vazio oferecia álibi.
Ficamos.
E ficar também é escolha.
O vazio se tornou hábito,
depois identidade.
Quando tentamos sair,
já não sabíamos como.
O óbvio estava lá,
intacto,
esperando maturidade.
Mas o tempo não negocia.
Permanecer no vazio cobra juros.
O óbvio, esquecido,
virou saudade.
Foi no óbvio que permanecemos no vazio,
e no vazio
perdemos o óbvio.
Agora olhamos para trás,
chamando de acaso.
Mas foi escolha repetida.
O vazio não nos prendeu,
nós o alimentamos.
O óbvio passou,
discreto.
Ficamos com o eco
do que não fizemos.
Permanecemos no vazio,
até que o vazio
passou a permanecer em nós.
O óbvio não volta igual.
Ele retorna exigente.
E nem sempre retorna.
Às vezes, apenas falta.

(Betto Gasparetto – iii-mcmxcvii)
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