Monólogo: Entre o Ébano e o Marfim, a Neutralidade

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Entre o ébano e o marfim, a neutralidade,
não como conforto,
mas como tensão suspensa.
O escuro chama,
o claro exige.
Entre ambos, o passo hesita.
Não é ausência de escolha,
é peso de escolhas simultâneas.
O ébano guarda a noite,
o marfim reclama a luz.
A neutralidade escuta os dois,
e não se rende a nenhum.
Ela não brilha,
nem se esconde.
Sustenta o conflito em silêncio.
Ser neutro não é ser vazio,
é conter extremos.
Entre o preto e o branco,
a consciência afina.
Cada decisão custa,
mesmo quando adiada.
A neutralidade não absolve,
apenas observa.
Vê a lâmina e o curativo,
a queda e o impulso.
Entre o ébano e o marfim,
o coração aprende medida.
Não grita vitória,
não celebra pureza.
Aceita a mistura.
O meio não é morno,
é incandescente.
Queima devagar.
A neutralidade paga preço,
por não se vestir de bandeira.
Ela caminha sem coro,
sem aplauso.
Carrega dúvidas como ferramentas.
Entre extremos,
escolhe o humano.
Não nega a sombra,
não idolatra a luz.
Ajusta o olhar.
A neutralidade sustém pontes,
quando muros seduzem.
Entre o ébano e o marfim,
mantém a travessia aberta.
É ética do intervalo,
disciplina do meio.
Não é covardia,
é responsabilidade.
A neutralidade não paralisa,
orienta.
Pede tempo,
pede escuta.
Assume perdas sem espetáculo.
Entre o escuro e o claro,
preserva o pulso.
Não resolve tudo,
mas evita o abismo.
A neutralidade respira,
enquanto os extremos sufocam.
Entre o ébano e o marfim,
permanece firme.
Não por indecisão,
mas por cuidado.
E escolhe continuar humano.

(Betto Gasparetto – vii-mcmxcvii)

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