Rosas que o Tempo Reaprendeu a Florir

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

Teu nome é primavera abrindo a velha janela,
E a casa toca um hino quase febril.
No chão cansado nasce a luz mais bela,
Como se a tarde fosse um varal de anil.
O vento passa e arruma nossas cadeiras,
E a mesa aprende o rito do regressar.
No vidro antigo dormem primaveras
Que o teu sorriso insiste em acordar.
O mundo, atento, pousa no parapeito,
E a paz respira amplo no meu peito.

II

Caminhas leve e o piso se ilumina,
Com claridade mansa de perdão.
A sombra antiga afrouxa a sua espinha,
E o medo esquece a própria pretensão.
Teu passo afina o fuso da memória,
E a noite volta a ser porto gentil.
Na estante, os livros contam outra história,
Onde o destino aprende a ser civil.
A campainha soa como um poema,
E a vida ajusta, em nós, seu diadema.

III

Se o tempo teve ofensa e desencontro,
Agora aprende o gesto de curar.
Teu colo é mapa, bússola e encontro,
Teu beijo é tábua estreita sobre o mar.
No corredor das horas reviradas,
Acendo velas novas no viver.
E as portas velhas, antes emperradas,
Se abrem largas para o amanhecer.
Em cada fresta entra um ouro puro,
Que faz do agora um sempre mais seguro.

IV

Rosas negras, rosas brancas, rosas vermelhas,

rosas sem pétalas eu recordo ausências, sim, mas sem espinho:
Viraram adubo, chão, semente e pão.
Do pranto antigo fiz canteiro e ninho,
E o coração ganhou mais condição.
Teu nome escrito em água permanece,
Como um vitral de súplica e de luz.
E tudo aquilo que o relógio esquece,
Na tua pele o amor outra vez traduz.
A vida, sábia, ensina o verbo “ficar”,
E o verbo “ir” aprende a repousar.

V

No gabinete manso da ternura,
Assino o pacto simples do cuidado.
A tua mão, que toca e não censura,
Me dá licença para ser curado.
O que não disse, digo agora em calma,
Sem precipício, sem o ardor do grito.
Tuas pupilas, lâmpadas da alma,
Me dão a senha do caminho aflito.
E eu sigo leve, límpido e inteiro,
Como um riacho novo no terreiro.

VI

Teus ombros carregaram minhas noites,
E sobre eles deitei meu furacão.
Mas teu abraço, firme em seus açoites,
Fez da tormenta simples oração.
Aprendi tarde a arte de escutar-te,
E a pausa em ti virou revelação.
Agora sei: amar é habitar-te,
E habitar-me em tua habitação.
Dois tetos, um só céu por cobertura,
Duas raízes, a mesma agricultura.

VII

Se o mundo exige pressa e ruge aflito,
Nosso relógio anda noutro tom.
O cotidiano, sábio e infinito,
Faz do pequeno a pedra e o pilão.
Café, louça, caderno e panos limpos:
São sacramentos de um viver real.
E nos miúdos gestos, claros, simples,
A eternidade surge horizontal.
Quem dera o tempo olhasse o nosso rito
E nos chamasse de seu favorito.

VIII

Quando anoitece e a rua se aquieta,
Acendo a lâmpada da confidência.
No couro da poltrona a paz se deita,
E a voz encontra justa continência.
Falo baixinho o que me resta ainda,
Tu me devolves tudo em compaixão.
E a madrugada, doce e bem-vinda,
Coroa o teto de constelação.
No travesseiro, a mente se desnuda,
E o corpo diz que a fé não mais se muda.

IX

Se amanhã vier duro, vem conosco:
Há pão, há lume, há água e há coragem.
Se amanhã vier manso, que seja o posto
De celebrarmos juntos a viagem.
O que passou não volta, mas ensina;
O que virá não pesa, mas convoca.
E o que é agora é chama cristalina,
Que em nossa pele arde e nos desloca.
Rosas que o tempo quis um dia extinguir
Hoje em teu nome voltam a florir.

X

E quando a aurora erguer seu pano claro,
No parapeito pousarão pardais.
Saberemos que amar é verbo raro,
E que o reencontro faz nascer vitrais.
Eu te prometo o simples: estar contigo,
Partilhar teto, pão, rumor e riso.
Teu nome é norte, bússola e abrigo,
Meu coração — teu hóspede preciso.
E que o destino, vendo-nos sorrir,
Aprenda, enfim, com a paz de prosseguir.

(Betto Gasparetto- ii-mmxvix)

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