Relógio de Areia Sob Dois Ombros

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

No vidro antigo escorre um ouro manso,
Relógio de areias calmas a cair.
O tempo, sábio, tece o nosso avanço,
E ensina o passo justo de sorrir.
Teu nome soa grave no silêncio,
Como um coral que aprende a respirar.
Meu peito, outrora frágil e propenso,
Virou rocha paciente à beira-mar.
A cada grão que a vida nos conceda,
Eu te ofereço abrigo sem moeda.

Maturidade é mesa posta em paz,
Com pão partido e água generosa.
É dar ao erro o sal que o humaniza,
É dar ao acerto a flor silenciosa.
Teu gesto é régua justa da medida,
Tua palavra é linha de costura.
E o pano áspero, em dobra convertida,
Vira camisa clara de ternura.
Não há milagre além do cotidiano:
Tu e eu, presentes, mãos no mesmo plano.

II

Fiz inventário ao fim de cada outono,
E descobri que a perda é professora.
O que perdi me devolveu o dono,
E o que ganhei me fez saber agora.
Se o corpo pede abrigo na fadiga,
Tu dás respaldo, música e calor.
E cada dobra antiga se mitiga,
E o velho medo ensaia outro fervor.
Por isso escrevo: a idade nos concede
O luxo raro de quem já não mede.

O destino, alfaiate sem chancela,
Ajusta o terno azul do porvir nosso.
Teu ombro é malha firme e clara tela,
Onde bordamos fé sem alvoroço.
O acaso vem, dá nó, depois afrouxa,
E a força mansa aprende a nos guiar.
Amor maduro é ponte que não murcha,
É engenharia clara de cuidar.
Dois arquitetos, planta sobre mesa,
Erguendo teto em justa singeleza.

III

Saudade passa, pede seu assento,
Servimos chá, conversamos devagar.
Ela, educada, aceita o acolhimento,
E vai, tranquila, ao ver-nos trabalhar.
No calendário, marcos de memória
Ganham fitas discretas de afeto.
Que cada data conte outra história,
Sem o exagero áspero do decreto.
O coração, que antes corria à frente,
Agora pisa firme e conscientemente.

Se a tarde cobre os telhados de cobre,
Acendo a chama simples do fogão.
Teu riso acalma o brio e torna nobre
Até a bruma leve do salão.
Lavamos pratos, rimos de bobagens,
Guardamos louças como quem cultiva.
E as minudências viram tatuagens
Do grande pacto que nos preserva a vida.
É nisso que o destino se decide:
Na arte de cuidar sem alarde, sem lide.

IV

Falemos, então, do encontro inevitável:
Não foi acaso, foi coerência e fé.
Havia um eixo oculto, imponderável,
Que nos pedia o sim que hoje se é.
Caminhos paralelos se curvando,
Como dois rios buscando o mesmo mar.
O mundo, ao ver, parou por um segundo,
E a luz piscou dizendo: “É por aí.”
E desde então o passo é tão certeiro,
Que o chão parece música em primeiro.

Chegará noite em que a cidade cala,
E a luz do abajur será farol.
Então teu nome, estrela que não falha,
Fará do escuro um campo de girassol.
Dormiremos com o mundo posto em ordem,
Sem a arrogância muda de vencer.
Vencer é estar, é dar abrigo e norte,
É dividir o medo e o prazer.
Que cada sonho acorde sem presságio,
E cada dia seja o nosso estágio.

O tempo quis provar nossas promessas,
Trouxe ventos, demorou estações.
Mas viu, enfim, que o amor que nos atravessa
Não cabe em ritos, títulos, senões.
É substância, é pão, é disciplina,
É o descanso certo após o labor.
É a mão que aquieta, a voz que ilumina,
É a lente justa do melhor valor.
Se há destino, é este que escolhemos:
Estar presentes, assim, amanheceremos.

V

Quando a ampulheta erguer seu último grão,
E o vidro fino pedir nossa atenção,
Erguerei tua mão dentro da minha mão,
E o tempo, humilde, fará reverência.
Porque viver, contigo, foi ciência
De aprender o eterno em cada instante.
E o destino, vendo a nossa paciência,
Nos nomeará de “claros caminhantes”.
Relógio de areia sob dois ombros:
Amor que sabe o peso e evita escombros.

(Betto Gasparetto- ii-mmxvix)

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