Arquivo para 24 de janeiro de 2026

Sentinela de Sombras

Posted in Sem categoria on 24 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Brenda GG)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Minha alma, forte de pedra bruta e eras,
onde o exército do teu nome nunca aportou.
Teus gestos, ecos em vãs atmosferas,
cujo império, de fato, nunca reinou.

Sou a vigilante noturna de um muro cego,
mirando o deserto onde devias estar.
O rancor é este templo mudo e maldito,
erguido no vácuo de um verbo esculpido como o oposto de “amar”.

Deixei o espaço no portão de entrada,
um oco, um hiato, para o vulto perdido no breu;
entrou sem ruído a esperança cansada
e ardeu, em segredo, o que jamais floresceu.

Indiferente à vitória, sou feita de espólios,
decifro os vestígios do que não se ergueu.
Há um luto de mármore atrás dos meus olhos,
pela cidade fantasma que o tempo teceu.

Permaneço como poeira sob um sol de derrotas,
repleta de ausências como escrava do cais.

O que me habita é a porta remota
que se fecha no agora… no talvez, depois
e no nunca mais.

(Brenda GG – i-xxvi)

Cartas Escritas com Luz da Manhã

Posted in Sem categoria on 24 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

Escrevo em ti o alvorecer discreto,
Que o tempo deixa à beira da janela.
O vento dobra a página e o soneto,
E o sol traduz a vida em cor mais bela.
O dia nasce em linhas de ternura,
E a tinta é bruma, amor e claridade.
Cada palavra em luz se transfigura,
E o verbo aprende a ser simplicidade.
Teu nome é título de todo dia,
E a aurora o lê com melancolia.

No papel do tempo há nossas rugas,
E cada sulco é verso a se lembrar.
As perdas, doces, viram velhas fugas,
E o coração ensina a repousar.
Tua ausência é flor que não termina,
Perfume antigo preso em mim, constante.
E a lembrança, ao toque da rotina,
Vira canção de outono itinerante.
No envelope guardo o teu retrato,
Que o vento lê em rito delicado.

II

Escrevo lento, para não perder
O peso leve do que é verdadeiro.
O som do lápis tenta compreender
O amor que cabe inteiro em um janeiro.
A mesa guarda o sol e as nossas sombras,
E o tempo passa em marcha sem rancor.
Se a vida é breve, o gesto não assombra,
Pois no detalhe mora o esplendor.
E o mundo cabe dentro da palavra
Que o peito dita e a saudade grava.

Os móveis velhos ouvem e respiram,
O chão range como um velho amigo.
A casa, cúmplice, acolhe e inspira,
E o relógio sorri, quase consigo.
Escrevo o amor em verso disciplinado,
Com métrica de brisa e compaixão.
O vento sopra, audaz, desordenado,
E embaralha as páginas no chão.
Mas o que importa é que o sentimento
Fica intacto, puro e sem tormento.

III

Há pausas entre as frases que se tocam,
São beijos que o papel não pode dar.
E as letras, que no tempo se deslocam,
Têm teu perfume em cada respirar.
As linhas curvam, suaves, como espelhos,
E refletem o instante em que sonhei.
A caligrafia guarda os meus conselhos,
E o coração responde: “Eu te esperei.”
Cada vírgula é lágrima contida,
Cada ponto é promessa de partida.

(Betto Gasparetto- ii-mmxvix)