O Amor é uma Carta Autografada

(Betto Gasparetto)

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I

Quando a tinta seca e o dia finda,
Sopro o pó dourado do querer.
O papel respira e se rescinde,
O amor renova o verbo “renascer”.
Tu és presença até no branco puro,
Que guarda o não-dito e o essencial.
Teus olhos vivem no intervalo escuro,
E acendem paz num lume fraternal.
A carta inteira pulsa e me devora,
Mas o silêncio é o que mais aflora.

II

Se o carteiro nunca te encontrar,
O vento há de levar o meu recado.
Ele saberá te procurar
Nos campos do destino enamorado.
E quando o sol tocar tua varanda,
Verás no chão as sombras do papel.
Serão meus versos, leves como a banda
Que o céu ensaia em cor de carrossel.
E entenderás: o amor é carta viva,
Que o tempo lê e o sonho reescreve altiva.

III

Guardo uma cópia em mim, escrita a fogo,
Pois sei que um dia o corpo se dispersa.
Mas tua imagem vive em tom e logo,
E o verso meu se faz tua promessa.
Mesmo se o mundo mudar de estação,
Mesmo se o verbo falhar, ainda assim
Te amarei no intervalo da canção,
Na pausa em que o silêncio toca em mim.
E o que restar será pura alegria:
Cartas escritas com luz e poesia.

IV

No fim do texto, a vida se resume:
Um nome, um gesto, um respirar.
E o tempo, comovido, se acostume
A sempre ver-me em ti recomeçar.
Porque amar é escrever sem fim,
Sem medo, sem pressa, sem parágrafo.
E o papel, cansado, olha pra mim
E diz: “o amor é uma carta autografada”.
Então descanso a pena e deixo a mão:
Teu nome basta — é minha conclusão.

(Betto Gasparetto- vii-mmxvi)

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