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Rosas que o Tempo Reaprendeu a Florir

Posted in Sem categoria on 22 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

 (Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

I

Teu nome é primavera abrindo a velha janela,
E a casa toca um hino quase febril.
No chão cansado nasce a luz mais bela,
Como se a tarde fosse um varal de anil.
O vento passa e arruma nossas cadeiras,
E a mesa aprende o rito do regressar.
No vidro antigo dormem primaveras
Que o teu sorriso insiste em acordar.
O mundo, atento, pousa no parapeito,
E a paz respira amplo no meu peito.

II

Caminhas leve e o piso se ilumina,
Com claridade mansa de perdão.
A sombra antiga afrouxa a sua espinha,
E o medo esquece a própria pretensão.
Teu passo afina o fuso da memória,
E a noite volta a ser porto gentil.
Na estante, os livros contam outra história,
Onde o destino aprende a ser civil.
A campainha soa como um poema,
E a vida ajusta, em nós, seu diadema.

III

Se o tempo teve ofensa e desencontro,
Agora aprende o gesto de curar.
Teu colo é mapa, bússola e encontro,
Teu beijo é tábua estreita sobre o mar.
No corredor das horas reviradas,
Acendo velas novas no viver.
E as portas velhas, antes emperradas,
Se abrem largas para o amanhecer.
Em cada fresta entra um ouro puro,
Que faz do agora um sempre mais seguro.

IV

Rosas negras, rosas brancas, rosas vermelhas,

rosas sem pétalas eu recordo ausências, sim, mas sem espinho:
Viraram adubo, chão, semente e pão.
Do pranto antigo fiz canteiro e ninho,
E o coração ganhou mais condição.
Teu nome escrito em água permanece,
Como um vitral de súplica e de luz.
E tudo aquilo que o relógio esquece,
Na tua pele o amor outra vez traduz.
A vida, sábia, ensina o verbo “ficar”,
E o verbo “ir” aprende a repousar.

V

No gabinete manso da ternura,
Assino o pacto simples do cuidado.
A tua mão, que toca e não censura,
Me dá licença para ser curado.
O que não disse, digo agora em calma,
Sem precipício, sem o ardor do grito.
Tuas pupilas, lâmpadas da alma,
Me dão a senha do caminho aflito.
E eu sigo leve, límpido e inteiro,
Como um riacho novo no terreiro.

VI

Teus ombros carregaram minhas noites,
E sobre eles deitei meu furacão.
Mas teu abraço, firme em seus açoites,
Fez da tormenta simples oração.
Aprendi tarde a arte de escutar-te,
E a pausa em ti virou revelação.
Agora sei: amar é habitar-te,
E habitar-me em tua habitação.
Dois tetos, um só céu por cobertura,
Duas raízes, a mesma agricultura.

VII

Se o mundo exige pressa e ruge aflito,
Nosso relógio anda noutro tom.
O cotidiano, sábio e infinito,
Faz do pequeno a pedra e o pilão.
Café, louça, caderno e panos limpos:
São sacramentos de um viver real.
E nos miúdos gestos, claros, simples,
A eternidade surge horizontal.
Quem dera o tempo olhasse o nosso rito
E nos chamasse de seu favorito.

VIII

Quando anoitece e a rua se aquieta,
Acendo a lâmpada da confidência.
No couro da poltrona a paz se deita,
E a voz encontra justa continência.
Falo baixinho o que me resta ainda,
Tu me devolves tudo em compaixão.
E a madrugada, doce e bem-vinda,
Coroa o teto de constelação.
No travesseiro, a mente se desnuda,
E o corpo diz que a fé não mais se muda.

IX

Se amanhã vier duro, vem conosco:
Há pão, há lume, há água e há coragem.
Se amanhã vier manso, que seja o posto
De celebrarmos juntos a viagem.
O que passou não volta, mas ensina;
O que virá não pesa, mas convoca.
E o que é agora é chama cristalina,
Que em nossa pele arde e nos desloca.
Rosas que o tempo quis um dia extinguir
Hoje em teu nome voltam a florir.

X

E quando a aurora erguer seu pano claro,
No parapeito pousarão pardais.
Saberemos que amar é verbo raro,
E que o reencontro faz nascer vitrais.
Eu te prometo o simples: estar contigo,
Partilhar teto, pão, rumor e riso.
Teu nome é norte, bússola e abrigo,
Meu coração — teu hóspede preciso.
E que o destino, vendo-nos sorrir,
Aprenda, enfim, com a paz de prosseguir.

(Betto Gasparetto- ii-mmxvix)

Monólogo: Entre o Ébano e o Marfim, a Neutralidade

Posted in Sem categoria on 21 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Entre o ébano e o marfim, a neutralidade,
não como conforto,
mas como tensão suspensa.
O escuro chama,
o claro exige.
Entre ambos, o passo hesita.
Não é ausência de escolha,
é peso de escolhas simultâneas.
O ébano guarda a noite,
o marfim reclama a luz.
A neutralidade escuta os dois,
e não se rende a nenhum.
Ela não brilha,
nem se esconde.
Sustenta o conflito em silêncio.
Ser neutro não é ser vazio,
é conter extremos.
Entre o preto e o branco,
a consciência afina.
Cada decisão custa,
mesmo quando adiada.
A neutralidade não absolve,
apenas observa.
Vê a lâmina e o curativo,
a queda e o impulso.
Entre o ébano e o marfim,
o coração aprende medida.
Não grita vitória,
não celebra pureza.
Aceita a mistura.
O meio não é morno,
é incandescente.
Queima devagar.
A neutralidade paga preço,
por não se vestir de bandeira.
Ela caminha sem coro,
sem aplauso.
Carrega dúvidas como ferramentas.
Entre extremos,
escolhe o humano.
Não nega a sombra,
não idolatra a luz.
Ajusta o olhar.
A neutralidade sustém pontes,
quando muros seduzem.
Entre o ébano e o marfim,
mantém a travessia aberta.
É ética do intervalo,
disciplina do meio.
Não é covardia,
é responsabilidade.
A neutralidade não paralisa,
orienta.
Pede tempo,
pede escuta.
Assume perdas sem espetáculo.
Entre o escuro e o claro,
preserva o pulso.
Não resolve tudo,
mas evita o abismo.
A neutralidade respira,
enquanto os extremos sufocam.
Entre o ébano e o marfim,
permanece firme.
Não por indecisão,
mas por cuidado.
E escolhe continuar humano.

(Betto Gasparetto – vii-mcmxcvii)

Monólogo: Foi no Óbvio que Permanecemos no Vazio

Posted in Sem categoria on 20 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Foi no óbvio que permanecemos no vazio,
quando tudo pedia atenção simples.
Ignoramos o que estava diante,
buscando profundidades inventadas.
O óbvio não seduz,
não promete mistério.
Por isso o evitamos.
Permanecemos no vazio,
porque parecia mais complexo.
Havia respostas claras,
mas queríamos enigmas.
O óbvio falava baixo,
e não gritava urgência.
Escolhemos o ruído.
No vazio,
acreditamos estar pensando.
Na verdade, adiávamos.
O óbvio exigia gesto,
o vazio permitia espera.
Permanecemos ali,
suspensos entre escolhas.
O simples assustava,
porque não tinha desculpa.
O vazio acolhia,
pois nada cobrava.
Foi no óbvio que falhamos,
ao não tocá-lo.
Passamos ao redor,
como se queimasse.
O óbvio pedia cuidado,
nós oferecemos teoria.
Permanecemos no vazio,
chamando-o de prudência.
Mas era medo.
Medo de resolver,
medo de perder o conflito.
O vazio parecia neutro,
mas corroía.
O óbvio sustentaria,
se aceito.
Preferimos o intervalo,
onde nada se decide.
O tempo passou conosco parados.
O vazio se ampliou,
enquanto o óbvio envelhecia.
Houve sinais suficientes,
repetidos.
Mas o óbvio cansa
quem não quer mudar.
Permanecemos no vazio,
por conveniência emocional.
Era mais fácil explicar ausência
do que assumir presença.
O óbvio pedia responsabilidade,
o vazio oferecia álibi.
Ficamos.
E ficar também é escolha.
O vazio se tornou hábito,
depois identidade.
Quando tentamos sair,
já não sabíamos como.
O óbvio estava lá,
intacto,
esperando maturidade.
Mas o tempo não negocia.
Permanecer no vazio cobra juros.
O óbvio, esquecido,
virou saudade.
Foi no óbvio que permanecemos no vazio,
e no vazio
perdemos o óbvio.
Agora olhamos para trás,
chamando de acaso.
Mas foi escolha repetida.
O vazio não nos prendeu,
nós o alimentamos.
O óbvio passou,
discreto.
Ficamos com o eco
do que não fizemos.
Permanecemos no vazio,
até que o vazio
passou a permanecer em nós.
O óbvio não volta igual.
Ele retorna exigente.
E nem sempre retorna.
Às vezes, apenas falta.

(Betto Gasparetto – iii-mcmxcvii)

Monólogo: Num Campo de Batalha Lutamos sem Armas

Posted in Sem categoria on 19 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Num campo de batalha lutamos sem armas,
onde o corpo avança antes da razão.
Não havia espadas,
nem escudos visíveis.
Havia medo circulando livre,
e decisões nuas.
Lutamos com palavras mal ditas,
com silêncios mal sustentados.
Cada passo era confronto,
cada recuo, ferida aberta.
Não armamos a mão,
armamos o peito.
O inimigo não vestia rosto,
morava entre nós.
No campo de batalha,
a coragem falhava cedo.
Não havia glória,
apenas sobrevivência.
Lutamos sem armar,
porque tudo já era arma.
O olhar feria,
o tom condenava.
A memória servia de munição,
e o passado puxava o gatilho.
Não houve vencedores,
apenas resistentes.
Cada palavra lançada
caía como estilhaço.
O chão absorvia promessas,
pisoteadas pela pressa.
Lutamos cansados,
antes mesmo de sangrar.
A batalha era íntima,
mas deixava ruínas públicas.
O silêncio explodia por dentro,
sem fazer barulho.
Não armamos defesa,
porque acreditávamos demais.
No campo de batalha,
amar era risco tático.
Avançar significava perder,
recuar também.
A luta não pedia heróis,
pedia fim.
Mas continuamos,
por hábito ou medo.
O campo se alargava,
quanto mais tentávamos sair.
Não armamos trégua,
apenas adiamos a queda.
O corpo seguia inteiro,
a alma não.
Lutamos sem armar,
e por isso ferimos fundo.
A batalha terminou sem aviso,
como tudo que dói.
Restaram marcas invisíveis,
difíceis de explicar.
O campo esvaziou-se,
mas não nos deixou.
Ainda caminhamos nele,
mesmo longe.
Porque certas guerras
não precisam de armas.
Precisam de vínculo,
de expectativa,
de amor mal cuidado.
Num campo de batalha,
lutamos sem armar,
e pagamos o preço inteiro.
Não houve troféu,
nem lição clara.
Apenas a certeza amarga
de que lutar assim
consome mais
do que qualquer derrota.
Sobrevivemos,
mas não vencemos.

(Betto Gasparetto – iii-mcmxcvii)

Monólogo: Lágrimas Inóspitas

Posted in Sem categoria on 18 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Lágrimas inóspitas
não pedem abrigo.
Caem onde não há consolo,
nem promessa de chão.
São lágrimas sem destino,
que não encontram ombro.
O rosto endurece,
mas a lágrima insiste.
Inóspita é a dor
que não recebe acolhida.
Essas lágrimas
não comovem plateias,
não convocam socorro.
Escorrem em silêncio,
como quem sabe
que ninguém virá.
Lágrimas inóspitas
nascem do excesso,
não da fraqueza.
São resultado
de suportar demais.
O mundo passa,
indiferente ao sal.
A lágrima cai,
mas não limpa.
Ela pesa,
como pedra líquida.
Não alivia,
aprofunda.
Lágrimas assim
não pedem perdão.
Elas denunciam limites.
O corpo cansa
de ser forte.
A alma cansa
de se explicar.
Inóspita
é a lágrima
que cai sozinha.
Não há mão,
não há palavra.
Apenas queda.
Essas lágrimas
não querem resposta.
Querem cessar.
Mas continuam,
porque não sabem parar.
Lágrimas inóspitas
marcam território interno.
Dizem:
aqui doeu.
Aqui passou do limite.
O rosto seca,
mas o dentro permanece molhado.
São lágrimas
que não se exibem.
Retiram-se discretas,
como quem já perdeu.
Inóspitas,
porque não encontram morada.
Caem no nada,
e se dissolvem.
Ainda assim,
deixam rastro.
O corpo aprende
a viver com elas.
Não as expulsa,
não as celebra.
Apenas suporta.
Lágrimas inóspitas
ensinam resistência.
Não curam,
mas revelam.
Onde ninguém ficou,
elas estiveram.
Onde faltou cuidado,
elas surgiram.
A lágrima inóspita
não pede amor.
Apenas prova
que ainda há sentimento.
Mesmo no deserto.
Mesmo sem retorno.

(Betto Gasparetto – xii-mcmxcvii)