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Monólogo: Por que Chorei em Tuas Lágrimas

Posted in Sem categoria on 17 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Chorei em tuas lágrimas,
porque nelas me vi.
Não era só tua dor,
era espelho.
Quando teus olhos cederam,
algo em mim desabou.
Chorei em tuas lágrimas,
porque eram profundas.
Não pediam consolo,
pediam presença.
Tua lágrima carregava histórias
que minha boca não soube dizer.
Ao tocá-las,
reconheci limites.
Não chorei por fraqueza,
chorei por excesso.
Havia mais sentimento
do que silêncio suportava.
Chorei em tuas lágrimas,
porque eram verdade.
Não buscavam efeito,
não pediam palco.
Caíam honestas,
inteiras.
Ao vê-las,
minha defesa cedeu.
Não era mais possível
fingir firmeza.
Tua lágrima abriu passagem
para a minha.
E juntas,
confundiram origens.
Já não sabia
quem doía mais.
Chorei em tuas lágrimas,
porque eram abrigo.
Ali pude cair,
sem explicação.
Não chorei por ti apenas,
chorei conosco.
Pelo que foi,
e pelo que não será.
Tua lágrima
autorizou a minha.
Disse, sem voz,
que sentir ainda era permitido.
Chorei em tuas lágrimas,
porque nelas não havia culpa.
Só humanidade.
Quando secaram,
algo permaneceu.
Um vínculo silencioso,
feito de dor partilhada.
Chorei em tuas lágrimas,
porque amar também é cair.
E naquele instante,
caímos juntos.
Sem defesa alguma.

(Betto Gasparetto – ii-mcmxcvii)

Monólogo: Construímos o Início, Dilaceramos o Final

Posted in Sem categoria on 16 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Construímos o início com cuidado,
como quem aprende a tocar o chão.
Havia intenção,
havia promessa.
Cada gesto inaugurava futuro.
O começo respirava esperança.
Construímos o início palavra a palavra,
acreditando na duração.
O tempo parecia aliado,
paciente.
No início,
tudo fazia sentido.
A dúvida era pequena,
quase afeto.
Mas o meio cansou.
A repetição desgastou o brilho.
O que sustentava
passou a exigir.
Construímos o início,
mas negligenciamos o cuidado.
O hábito substituiu o zelo.
O diálogo encurtou.
O fim começou discreto,
sem anúncio.
Dilaceramos o final
em atos mínimos.
Não foi um golpe,
foi insistência errada.
Cada silêncio ampliou a fissura.
O que unia
passou a dividir.
Dilaceramos o final
tentando manter o início.
Confundimos persistir
com permanecer.
O começo não suporta
ser repetido sem ajuste.
O final nasceu do acúmulo,
não da decisão.
Construímos o início com sonho,
dilaceramos o final com descuido.
Quando percebemos,
já era tarde.
O início não voltou,
o final não esperou.
Houve tentativas,
tardias.
O que se rompeu
não aceitou remendo.
Dilacerar o final
dói mais
quando o início foi belo.
A memória preserva o começo,
e acusa o fim.
Construímos o início juntos,
mas terminamos sós.
O final não foi cruel,
foi coerente.
Apenas revelou
o que ignoramos.
Construir exige presença contínua.
Não basta começar bem.
O final cobra manutenção.
Dilaceramos o final
ao parar de escolher.
O início foi criação,
o final, consequência.
Restou aprendizado tardio,
difícil de aplicar.
Construímos o início,
dilaceramos o final,
e carregamos ambos.
Um como lembrança,
outro como limite.
O começo ensina,
o fim confirma.
Entre eles,
fomos humanos.

(Betto Gasparetto – v-mcmxcvii)

27 Haicais Imperfeitos (Pretérito Mais Que Perfeito do TEMPO, do SILÊNCIO e das SOMBRAS)

Posted in Sem categoria on 15 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

0. PRÓLOGO: DESENCONTROS

Passos desencontram,
o relógio guarda silêncios —
chove em dois caminhos.


1. TEMPO
O tempo passa
sem olhar para trás —
o agora fica.

2. LÁGRIMAS NAS SOMBRAS
Choram sombras
onde a luz não alcança
o rosto da dor.

3. UM PASSO APENAS
Um passo só
e o chão já não é o mesmo —
decide o corpo.

4. A ANGÚSTIA DO NÃO
O não ecoa
mais alto que o sim —
porta fechada.

5. PERDÃO NOTURNO
Noite perdoa
o que o dia feriu —
silêncio aprende.

6. BEIJOS QUE CALAM
Boca encontra boca,
as palavras caem —
fala o toque.

7. MOMENTOS
Um instante
segura a eternidade
na respiração.

8. CONSEQUÊNCIAS
Depois do ato,
o tempo cobra juros —
sem negociar.

9. FUGAS
Corro de mim,
mas levo comigo
o mesmo peso.

10. PALAVRAS AO VENTO
Ditas ao vento,
algumas voltam
como lâminas.

11. TALVEZ
Talvez exista
um sim cansado
dentro do não.

12. PRETÉRITO DO SIM
O sim foi ontem,
hoje resta apenas
a lembrança.

13. ÚLTIMO DESEJO
Antes do fim,
queria só calma —
nada mais.

14. EPITÁFIO DO MEDO
Aqui jaz o medo:
sobreviveu pouco
à coragem.

15. SEGREDOS
O que não digo
cresce mais em mim
do que a verdade.

16. RESTOS DE UM TALVEZ
No chão do dia,
sobram fragmentos
de um talvez.

17. ALÉM DO SILÊNCIO
Depois do silêncio,
ainda há algo —
difícil nomear.

18. SEMBLANTES
Rostos passam,
todos carregam
outra história.

19. COGITAÇÕES
Penso demais,
o mundo passa
sem resposta.

20. PÁGINAS
Página em branco:
o medo também
sabe escrever.

21. LEMBRANÇAS
A memória
não pede licença —
entra.

22. COMPROMISSO
O relógio gira,
mas certas horas
não passam.

23. DETENÇÃO
Saída aberta,
mas o passo hesita —
prisão interna.

24. DIVISÃO
Segredo pesa
mais quando dividido
com ninguém.

25. ACONECIMENTO
Tudo acontece
no breve espaço
entre dois olhares.

26. IMEDIATO
Escolha feita,
o depois começa
sem aviso.

27. INSISTÊNCIAS
Quando calamos,
algo insiste em viver
no intervalo.

(Betto Gasparetto – x-mcmxciii)

Monólogo: Depois que nos Tornamos Ausência

Posted in Sem categoria on 14 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

Depois que nos tornamos ausência,
o espaço aprendeu outro peso.
A casa respirou vazio,
e o tempo perdeu endereço.
Não foi partida ruidosa,
foi retirada lenta do existir.
Tornar-se ausência
é continuar sem presença.
O nome ainda ecoa,
mas não responde.
Os objetos lembram gestos,
que o corpo já não repete.
A ausência ocupa cadeiras,
atravessa corredores,
senta-se à mesa sem pedir.
Depois que nos tornamos ausência,
o cotidiano se desorienta.
Nada some por completo,
apenas muda de estado.
A voz vira memória,
o toque vira hipótese.
A ausência não grita,
mas insiste.
Ela corrige rotinas,
desloca afetos,
reaprende horários.
Tornar-se ausência
é permanecer invisível.
O mundo segue,
mas com falha de contorno.
Rimos por hábito,
choramos por reflexo.
A ausência observa,
sem julgar.
Ela sabe
o que não foi dito.
Depois que nos tornamos ausência,
o amor não termina,
apenas se esconde.
Há presenças mais ausentes
que certas ausências fiéis.
O esquecimento tenta,
mas não vence.
A ausência cria raízes,
onde o tempo pisa.
Ela não pede lembrança,
impõe-se como fato.
Ser ausência
é existir em atraso.
Chegar sempre depois,
mesmo estando antes.
A ausência ensina
que nada se perde inteiro.
Tudo permanece
em outra forma de dor.
Depois que nos tornamos ausência,
aprendemos a pesar menos,
e significar mais.
O mundo não nos vê,
mas nos sente.
A ausência não ocupa espaço,
ocupa consciência.
Ela não se move,
mas desloca tudo.
Tornar-se ausência
é a última metamorfose do afeto.
Onde não há corpo,
sobra sentido.
Onde não há voz,
sobra eco.
A ausência permanece,
quando tudo parte.
E nos define para sempre.

(Betto Gasparetto – ix-mcmxcvii)

Monólogo das Mãos que Controlam

Posted in Sem categoria on 13 de janeiro de 2026 by Prof Gasparetto

(Betto Gasparetto)

By Kontext 2v1+InG Flux Schnell+ Starlight XL, Atomix XL v4 Lightning

As mãos não falam,
Mas ordenam.
Elas moldam destinos,
Sem pedir permissão.
Mãos escrevem contratos,
E apertam gargantas.
Assinam acordos,
E selam condenações.
Há mãos que acolhem,
Outras que retêm.
Mãos distribuem poder,
E recolhem liberdades.
O controle começa no toque,
Na posse do gesto.
Quem segura decide,
Quem solta perde.
Mãos constroem muros,
E fecham portas.
Também levantam pontes,
Quando convém.
O domínio reside nos dedos,
Na precisão do comando.
Mãos contam recursos,
Medem forças,
Calculam riscos.
O controle é manual,
Direto,
Frio.
Mãos treinadas não tremem.
Executam,
Administram,
Punem.
As mãos determinam limites,
Do corpo,
Do espaço,
E da vontade.

Mas as mãos não pensam sozinhas.
Recebem ordens invisíveis.
Repetem gestos aprendidos,
Chamam de hábito o que é doutrina.

Há mãos que herdam privilégios,
Antes mesmo do nome.
Outras aprendem cedo
O peso de pedir.

Mãos não discutem ética,
Executam protocolos.
O erro raramente é delas,
A culpa sempre encontra outro dono.

Quando lavadas, parecem limpas.
Quando cruzadas, fingem neutralidade.
Quando apontam, desviam o foco.

O mundo não gira —
É girado.
Por mãos que apertam alavancas,
Enquanto outras contam os danos.

O silêncio também é manual.
Constrói-se dedo a dedo,
Arquivo por arquivo,
Carimbo após carimbo.

E quando tudo cai,
Quando a estrutura falha,
As mãos se afastam.
Nunca estiveram ali.

Restam as marcas:
No pulso,
Na memória,
Na história.

Porque as mãos não falam.
Mas deixam tudo dito.

(Betto Gasparetto – vii-mcmxcvii)